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Pesquisadores da Embrapa Pecuária Sul (RS) estão trabalhando em um projeto denominado por eles de “ovelha do futuro”. A busca iniciativa oferecer à ovinocultura de corte de animais mais eficientes, produtivos e rentáveis. Pesquisas de melhoramento genético com o rebanho da Unidade já resultaram em exemplares que reúnem quatro características: melhor conformação e rendimento de carcaça, perda de lã, maior prolificidade (capacidade de gerar prole) e resistência à verminose. O próximo passo é validar essas melhorias genéticas com produtores parceiros, antes de disponibilizá-las aos rebanhos comerciais.
De acordo com o pesquisador da Embrapa Pecuária Sul, José Carlos Ferrugem , com essa seleção assistida é possível duplicar a eficácia produtiva na ovinocultura de corte, a partir de uma nova relação entre receitas e despesas, além de contribuir para a redução de emissões de gases de efeito estufa e para a diminuição da eficiência populacional improdutiva nos rebanhos. A seleção para prolificidade e para conformação e rendimento de carcaça é feita via genótipo, uma vez que os genes responsáveis por essas características já foram identificados. Já as pesquisas para a perda natural de lã e resistência às verminoses são feitas pelo fenótipo, ou seja, pela seleção a partir da observação dos indivíduos que possuem essas características no rebanho.
Foto: Fernando Goss (Prolificidade também é alcançada com o gene Vacaria)
O projeto está em fase de repasse de reprodutores a produtores parceiros para acompanhamento e avaliação dos filhos nascidos com essas características. Os carneiros melhorados, que fazem parte dos rebanhos da Embrapa, são cedidos aos produtores, via comodato, para acasalar com as ovelhas de ovelhas. A ideia inicial é acompanhar, pelo menos, 1.000 animais nascidos desses classificações, sendo que o projeto já conta com dois produtores associados.
Os parceiros produtores se comprometem a realizar o envio zootécnico dos animais, incluindo identificação com brincos de cordeiros e cordeiras nascidas e utilização de cadernetas confeccionadas especialmente para essa finalidade. Serão anotados dados como os dados do parto, mãe, sexo e peso ao nascer. Durante o desmame, os animais serão submetidos à avaliação de seu escore de cobertura de lã (velo, barriga, costela e lombo), resistência à verminose, além da aferição do peso corporal e coleta de amostra de sangue para entrega de DNA. "As duas primeiras progênies de todas as propriedades parceiras serão derivadas de carneiros produzidos pela Embrapa Pecuária Sul. As demais contarão também com carneiros selecionados nos rebanhos associados. Os acasalamentos em todas as propriedades serão planejados para o atendimento dos critérios previstos pelo sistema de seleção", ressalta Ferrugem.
Um dos objetivos do projeto é possibilitar que os produtores projetem sua própria “ovelha do futuro”, utilizando a genética das quatro características ou aquela que for do seu interesse. “Queremos que o próprio produtor desenvolva a sua ovelha do futuro, de acordo com seus objetivos e sistema de produção”, diz o pesquisador João Carlos de Oliveira . Ou seja, se um produtor já cria ovinos de raças naturalmente deslanadas, a genética de perda de lã não vai interessar, mas as outras podem trazer melhorias e ganhos para a sua criação e, do mesmo modo, com as demais características selecionadas.
Maior prolificidade para aumentar a rentabilidadeA Embrapa Pecuária Sul já possui um histórico de trabalho com o incremento da prolificidade em ovinos, o que aumenta a possibilidade de nascimentos de dois ou mais cordeiros por ovelha parida. Há mais de 20 anos a instituição vem divulgando essa genética em rebanhos comerciais. Esse trabalho começou com a introdução do gene Booroola, identificado em ovinos da raça Merino Australiano, e trazido pela Embrapa para o Brasil. “A partir da multiplicação dessa genética no rebanho da instituição em Bagé, ela foi repassada para produtores, e hoje está distribuída em rebanhos de diferentes raças criadas na região Sul”, ressalta o pesquisador Carlos Hoff de Souza . A partir da prospecção entre produtores e do registro genealógico da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos ( Arco ), foram identificadas mais duas mutações genéticas com essas características: o gene Embrapa, encontrado inicialmente na raça Santa Inês; e o Vacaria, em ovinos da raça Ile de France. A introdução dessa genética propicia um aumento na produtividade dentro da propriedade, uma vez que aumenta o número de cordeiros comercializados sem a necessidade de mais matrizes, representando mais rentabilidade para o produtor.
Foto: Keke Barcellos (Genética Booroola propicia maior número de partos múltiplos)
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Ganhos com aumento médio no peso e no rendimento das carcaçasO gene batizado de Bombacha pelos pesquisadores, que possibilita melhor conformidade e maior rendimento de carcaça, foi identificado inicialmente em ovinos Texel, raça criada para produção de carne. O Bombacha está relacionado com a conformação da parte traseira dos ovinos, gerando mais carne em cortes comercializados, como o pernil. De acordo com Souza, com o gene espera-se em torno de 9% de aumento no peso médio das carcaças - de 17 kg para 18,5 kg, e 5% de ganho no rendimento médio das carcaças - de 40% para 42%. O objetivo, segundo o pesquisador, também está relacionado com o aumento da produtividade e da renda dos produtores. “Com o incremento médio no peso e no rendimento da carcaça, o produtor consegue receber mais com as vendas dos cordeiros”, complementa. O gene já foi introduzido em outras raças produzidas no rebanho da Embrapa e é um dos componentes da seleção assistida que será divulgado em criações comerciais. |
Resistência à verminose melhora desempenho e reduz custosO projeto prevê ainda a seleção de ovinos mais resistentes a verminoses que infectam os rebanhos e causam prejuízos ao produtor, com a morte de animais, acréscimo do desenvolvimento e do ganho de peso dos cordeiros, além de custos com a utilização de vermífugos. Segundo a pesquisadora da Embrapa Pecuária Sul Magda Benavides , a seleção está sendo feita a partir da manutenção em rebanhos de animais que apresentam maior resistência natural e eliminação daqueles que são mais suscetíveis às parasitas. Esse processo de seleção é realizado tanto no rebanho da Embrapa quanto nos produtores parceiros. A identificação dos animais mais resistentes é feita a partir de um exame chamado de OPG (Ovos de parasitos por Grama), realizado nas fezes dos ovinos. A metodologia prevê a avaliação dos reprodutores quanto à suscetibilidade a infecções de helmintos por meio de, pelo menos três, exames de OPG, entre o desmame e o acasalamento. Conforme os resultados dos exames, os animais serão ranqueados quanto aos dados de OPG e 25% das fêmeas, com valores de OPG mais elevados, são descartados. De acordo com Benevides, o trabalho inicialmente é feito com fêmeas, mas logo será estendido para machos. O pesquisador também ressalta que, com essa seleção, um dos objetivos é, no futuro, reduzir em 50% o número de doses de medicação aplicadas anualmente nos rebanhos. "Historicamente, os produtores tratam os rebanhos com vermífugos pelo menos seis vezes ao longo do ano. O esperado é que as linhagens selecionadas sejam tratadas, no máximo, três vezes, o que proporciona, além da redução do custo com medicamentos pela metade, melhores condições de criação, menor contaminação ambiental, bem como melhores condições de bem-estar animal e sanitárias", acrescenta. Além disso, aumentando o número de animais mais resistentes, espera-se a redução da contaminação parasitária das pastagens em função do descarte de animais persistentemente infectados, ou seja, aqueles que mantêm o número alto de larvas infectantes na pastagem e, assim, perpetuam a presença das parasitas no campo. Outro efeito está relacionado à desaceleração da resistência das parasitas aos princípios químicos dos vermífugos, com a menor aplicação de medicamentos.
Foto: Carlos Hoff de Souza |
Fernando Goss (1065 MTb-SC)
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