Política Artigo de opinião
Dos Ramos de Oliveira ao Escudo de Ouro: a Paz Transacional como Nova Razão do Mundo
Enxergamos a substituição do Direito Internacional pela lógica do balcão de negócios. O novo “Conselho da Paz” pode vir à subverter o princípio da autodeterminação dos povos em uma mercadoria gerida pelos interesses de Washington.
24/01/2026 08h16 Atualizada há 19 horas
Por: Redação Fonte: Luciano Egidio Palagano
Figura 1- Foto: https://br.freepik.com/fotos-gratis/renderizacao-3d-do-planeta-terra_44957907.htm

Iniciamos esta reflexão sob a sombra de uma inflexão histórica. A história das relações internacionais, a partir da segunda metade do século XX, foi marcada pela tentativa de constitucionalizar a convivência entre os povos. A Carta das Nações Unidas de 1945 não foi apenas um tratado de paz, mas, mesmo com todas as suas contradições, foi o marco inicial da tentativa de um projeto de descolonização e de afirmação da soberania dos povos como um direito inalienável. No seu Artigo 1º, parágrafo 2, a Carta estabelece o compromisso de "desenvolver relações amistosas entre as nações, baseadas no respeito ao princípio da igualdade de direitos e da autodeterminação dos povos". Sob esse pilar, o status político de uma nação era uma prerrogativa da sua vontade coletiva, protegida por normas imperativas de Direito Internacional (jus cogens).

Contudo, o mundo está mudando e, ao que parece, para pior. Não fechamos sequer o primeiro mês de 2026 e já assistimos ao sequestro de um Chefe de Estado de uma nação soberana e à criação de um novo organismo internacional que, ao que parece, pretende substituir a ONU. Ao analisarmos o estatuto do chamado "Conselho da Paz", criado por Donald Trump, percebemos uma tentativa de substituição dos objetivos fundamentais, até agora vigentes (mesmo que muitas vezes apenas formalmente), nas relações internacionais: o eixo das relações internacionais baseadas em princípios fundamentais é transferido para o que poderíamos denominar de "a busca de uma estabilidade gerencial". Sugere-se, com isso, que a paz seria um mero subproduto de um arranjo de investimentos e normalização comercial.


Figura 1- Foto: https://br.freepik.com/fotos-gratis/renderizacao-3d-do-planeta-terra_44957907.htm

Se recorrermos à semiótica para a análise visual dos símbolos tanto da ONU como do tal Conselho da Paz essa ruptura salta aos olhos. No emblema da ONU temos o azul (paz, universalismo) e um mapa azimutal centrado no Polo Norte, onde todos os continentes são visíveis e cercados por ramos de oliveira, simbolizando uma esfera pública global protegida pelo Direito Internacional. Por mais que a centralidade no Polo Norte possa, também, ser questionada como uma centralidade simbólica do hemisfério norte global, enquanto o sul global é, na mesma imagem apresentado como periférico.

No entanto, o logotipo do Conselho da Paz é ainda mais excludente em seu simbolismo, ele apresenta um globo contido dentro de um escudo dourado, com foco geográfico explícito nas Américas (especificamente na América do Norte). O ouro e o escudo parecem sugerir uma "paz protegida" pelo poder financeiro e militar, e condicionada aos interesses de uma única nação, os EUA representado em destaque no globo. Os símbolos falam e, por vezes, gritam, e este símbolo parece gritar aos quatro ventos a transformação do direito universal à Paz em um ativo privado e gerido por interesses de mercado. E não de qualquer mercado, ou de um Mercado Multipolar, mas, no presente caso, dos interesses de mercado dos EUA.

Se observarmos estes fatos sob a ótica da tese que Dardot e Laval apresentam em “A Nova Razão do Mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal”, onde o argumento central é de que o Neoliberalismo não é apenas um modelo econômico, mas uma Racionalidade — uma forma de interpretação da realidade e ação no mundo, onde indivíduos e, até mesmo nações são transmutados em personas jurídicas; começa à aflorar a compreensão de que estamos enxergando a extensão dessa racionalidade neoliberal para o campo diplomático das relações internacionais. A paz deixa de ser um imperativo ético para se tornar uma Paz Transacional².

Neste novo paradigma, a autodeterminação é esvaziada; a soberania passa a depender da viabilidade e dos interesses de mercado (ou de determinados mercados), assim como da funcionalidade econômica dentro de cadeias de interesses hegemônicos, sacrificando-se o direito político absoluto e os imperativos éticos e morais como, por exemplo, a condenação à genocídios ou a soberania de territórios, em nome de pactos bilaterais que visam, estritamente, os interesses de determinadas elites nacionais, aos quais, para serem impostos, o uso da força, seja econômica ou militar, por parte de um Estado sobre o outro, se torna uma metodologia justificável, como estamos observando acontecer em Gaza e na Venezuela. Será este um caminho sem volta? Como chegamos até aqui? Existe uma saída?

Nas próximas colunas iremos aprofundar um pouco mais os elementos apresentados até aqui, e buscar refletir um pouco sobre estas perguntas.

por Luciano Egidio Piltz Palagano¹
Toledo - PR, 24/01/2026

 

¹ Historiador, repórter fotográfico, astrônomo amador e divulgador científico.

² O conceito de Paz Transacional se refere à uma abordagem nas relações internacionais que defende uma espécie "Mercado de Paz". Neste “mercado” a Paz se torna uma mercadoria barganhada, o que favorece os interesses de grandes potências e atores regionais em detrimento de uma paz justa, duradoura e cuja implementação leve em conta os Direitos Humanos Universais.