O pesquisador Francisco Carlos Krzyzanowski não mede o tempo pelos anos que trabalhou, mas pelas sementes que ajudou a germinar. E, na ciência, aquilo que germina atravessa gerações - é permanência. Aos 76 anos, recém-aposentado após 54 anos de trabalho — 38 deles como pesquisador da Embrapa Soja —, fala com o entusiasmo de um jovem agrônomo prestes a iniciar a carreira. “Eu me sinto um guri”, diz, já avisando que continuará em atividade como consultor e contribuindo nos cursos que ajudou a criar sobre vigor, patologia, tecnologia, tetrazólio, armazenagem, entre outros.
Do sítio em Itararé ao laboratório
A relação com o campo nasceu muito antes dos laboratórios, microscópios e artigos científicos. Em Itararé (SP), onde passou a infância, o avô mantinha um sítio com alambique e moenda movida por parelhas de burros — cenário que marcou a infância. “A maior alegria da criançada era ir para o sítio”, recorda. O convívio com a terra e com a rotina rural despertou, ainda cedo, o interesse pela Agronomia.
Antes, porém, Krzyzanowski experimentou a rotina urbana. Trabalhou no setor de saúde, atuou em rádio — onde apresentava um jornal falado na hora do almoço — e concluiu curso técnico em Contabilidade. Ao terminar o Curso Científico, decidiu prestar vestibular para Agronomia.
Mudou-se para Curitiba para fazer cursinho. Fez uma revisão intensiva em janeiro e enfrentou um vestibular concorrido na Universidade Federal do Paraná (UFPR), num período em que havia poucas escolas de Agronomia no país. Foi aprovado.
Durante a graduação, morou na Casa do Estudante Universitário e ajudava a cuidar da granja e da fazenda que abasteciam a instituição. Produziam hortaliças, como alface, couve e tomate, criação de porcos e aves além de banana na fazenda em Quaragueçaba. A prática no campo complementava a formação em sala de aula.
Da Emater ao IAC: o mergulho nas sementes
Formado, passou em concurso para a Emater, mas optou por continuar os estudos. Mudou-se para Piracicaba, conquistou bolsa do CNPq e concluiu o mestrado. Nesse período, ingressou como pesquisador no Instituto Agronômico de Campinas (IAC), na Seção de Sementes.
Ali trabalhou com milho, algodão, soja, café, braquiária e forrageiras. Teve o privilégio de atuar ao lado do pesquisador Oswaldo Bach, autor da primeira Regras para Análise de Sementes no Brasil. “Aprendi muito com ele”, relembra.
Foi também nessa fase que iniciou parceria com o pesquisador Romeu Kiihl, aprofundando estudos com sementes de soja. Em 1974, aos 25 anos, foi convidado como consultor para estruturar a área de sementes do recém-criado Iapar (Instituto Agronômico do Paraná). Elaborou o
programa de pesquisa, desenvolveu o projeto do laboratório e da Unidade de Beneficiamento de Sementes – UBS — que permanece referência até hoje — e ajudou a formar a equipe técnica. Pouco depois, ingressou definitivamente no instituto.
Com a geada de 1975, que devastou os cafezais paranaenses, participou da expansão da soja no Estado em um momento decisivo de reorganização produtiva e da criação do Sistema de Certificação de Sementes do Paraná.
O PhD e a consolidação científica
Em 1977, conquistou bolsa da Embrapa para cursar o doutorado na Mississippi State University, nos Estados Unidos, parceira do governo brasileiro em programas de sementes, com o objetivo de fomentar o Plano Nacional de Sementes (Planasem). Orientado por James Delouche, um dos maiores fisiologistas de sementes da época, concluiu o PhD em dois anos e oito meses — mais de um ano antes do prazo previsto.
De volta ao Brasil, assumiu funções de coordenação de pesquisa no Iapar. Mas a vocação estava na ciência aplicada. Em 1986, passou a integrar a Equipe de Sementes da Embrapa Soja, onde permaneceu até setembro do ano passado, quando se aposentou.
Lignina, dano mecânico e uma descoberta decisiva
Entre suas principais contribuições científicas está a relação entre o teor de lignina e a qualidade da semente de soja. Ao observar que determinadas cultivares quebravam mais que outras no momento da trilha e no transporte, buscou uma explicação genética e fisiológica. Demonstrou que sementes com maior teor de lignina no tegumento apresentam maior resistência a danos mecânicos e melhor desempenho em condições adversas.
“Hoje, sabe-se que cultivares de alta qualidade devem apresentar acima de 5% de lignina no tegumento e mais de 14% na vagem — parâmetros que orientam programas de melhoramento e produção”, explica.
Krzyzanowski também aprofundou estudos sobre danos mecânicos —imediatos, latentes e não aparentes (microfissuras) — e seus impactos no armazenamento, no tratamento de sementes e na qualidade fisiológica. A identificação das microfissuras como fator determinante para a perda do potencial de armazenamento abriu novas estratégias de controle na recepção da matéria-prima.
“Sem tegumento íntegro, não há proteção. E sem proteção, não há semente de
alta qualidade”, resume.
Tecnologia tropical e sofisticação da produção
Krzyzanowski acompanhou — e ajudou a construir — o salto tecnológico da produção de sementes no Brasil tropical. Participou da evolução da secagem, do armazenamento refrigerado, do controle de velocidade em elevadores, da classificação por peneiras e da adequação das colhedoras para reduzir danos mecânicos.
Hoje, o pesquisador defende o uso intensivo de inteligência artificial nas máquinas colhedoras, com regulagens mais precisas na operação de trilha, abertura de côncavo e velocidade de deslocamento. “Sou um entusiasta da Inteligência Artificial, com ela é possível melhorar muito a qualidade da matéria-prima ainda no campo”, afirma.
Entre os projetos aos quais tem se dedicado está o Qualigrãos, executado pela Embrapa Soja e na atualidade em parceria com a Aprosoja, entidade que representa os produtores de soja. A proposta é avaliar, de forma sistêmica, a qualidade do grão e da semente de soja produzidos no Brasil, acompanhando todo o percurso — da propriedade rural ao porto de exportação.
Um diagnóstico consistente permite embasar políticas públicas e orientar decisões técnicas. Se determinada região apresenta índices elevados de grãos quebrados, por exemplo, é possível direcionar ações específicas, como capacitação em regulagem de colhedoras, melhoria no transporte ou ajustes no armazenamento. “O grão quebrado deprecia a matéria-prima. E matéria-prima depreciada perde preço”, resume.
Abrates, manuais e formação de gerações
Sua atuação extrapolou os laboratórios. Krzyzanowski foi presidente da Associação Brasileira de Tecnologia de Sementes (Abrates) por dez anos e diretor financeiro por oito e, atualmente, integra a diretoria. Participou do processo de transformação da Revista Brasileira de Sementes no atual Journal of Seed Science, hoje reconhecido internacionalmente
É um dos editores do Manual de Vigor de Sementes – Conceitos e Testes, junto com o pesquisador José de Barros França Neto. A obra é considerada referência mundial. Também participou da organização cursos de tetrazólio, vigor, patologia, tecnologia de produção e armazenamento, contribuindo para a formação de centenas de profissionais.
O legado
Mesmo aposentado da Embrapa Soja, Krzyzanowski continua colaborando em pesquisas, orientando estudantes, oferecendo cursos e fazendo consultorias.
Quando questionado sobre conselhos aos jovens pesquisadores, repete a lição do pai, imigrante polonês: “Saber não ocupa espaço. Estude o máximo que puder, porque é por aí que você vai ser respeitado”, recordou. E acrescenta que é preciso humildade. “Ninguém é dono da verdade. Sempre há oportunidade para aprender mais. Essa contribuição que deixo consolidada é fruto da minha inquietação, da minha curiosidade, do desejo de entregar coisas boas e de não ter medo de me expor.”
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