No dia 15 de dezembro de 2025, ocorreu em Washington um evento que, embora tenha passado ao largo das manchetes principais da imprensa brasileira, carrega consequências sistêmicas para o destino de toda a bacia do Prata. Nos referimos à assinatura do Acordo de Estatuto de Forças (SOFA) entre os Estados Unidos e a República do Paraguai. Para qualquer observador comprometido com a emancipação e a independência da América Latina, este ato não pode ser reduzido a um protocolo técnico de “cooperação em defesa” ou a uma mera formalidade diplomática. No tabuleiro estratégico contemporâneo, este pacto constitui uma das vértebras da coluna central de um movimento geoestratégico profundo: a formalização de uma nova fase de subjugação das nações latino-americanas aos interesses políticos e econômicos de Washington.
Sob a égide do segundo governo de Donald Trump, testemunhamos a cristalização de uma política que tem ficado conhecida como "Doutrina “Donroe”" — uma síntese agressiva entre a “Doutrina Monroe” do início do século XIX e a agenda nacionalista de extrema-direita que grita "América Primeiro". Esta doutrina busca reposicionar o continente latino-americano como um "quintal" exclusivo dos EUA, sob gestão corporativo-militar direta. As elites paraguaias, sob a administração de Santiago Peña, emergem neste cenário não como espectadoras passivas da pressão imperial, mas como sujeitos ativos e mediadores locais de uma política que amplia a dependência nacional em relação ao império do norte. A convergência entre a estratégia de segurança nacional dos EUA e a necessidade de manutenção de poder das oligarquias locais resulta no que definimos como a "terceirização da soberania". Trata-se de um experimento perigoso em que o Estado Paraguaio abdica de sua autonomia constitucional e passa à gerir seu território como um ativo militar terceirizado, onde o uso da força e a vigilância são ditados por interesses estrangeiros, no presente caso os interesses dos EUA.
A Ofensiva Imperial da Doutrina “Donroe”: O Risco da Vigilância Permanente
Para compreender a gravidade do acordo SOFA, é necessário situá-lo na trajetória histórica da presença militar estadunidense na região, que sempre buscou garantir condições políticas favoráveis à reprodução do capital internacional e à manutenção de governos alinhados. A Doutrina “Donroe”, formalizada na Estratégia de Segurança Nacional de novembro de 2025, radicaliza o antigo preceito monroísta ao declarar o Hemisfério Ocidental como zona de influência absoluta, fechada a qualquer nação que Washington considere adversária ou rival, como, por exemplo, a China e a Rússia.
Esta doutrina opera através de uma fusão orgânica entre o aparato estatal estadunidense, grandes corporações energéticas e as gigantes do setor tecnológico. O "Corolário Trump" estabelece a máxima de que "economia é segurança nacional", justificando intervenções diretas para garantir o controle de recursos naturais e minerais críticos, mesmo que estas reservas se encontrem em território soberano de outras nações. O Paraguai, por sua posição geográfica central no coração do Cone Sul, sua proximidade com o Aquífero Guarani e a infraestrutura energética vital de Itaipu, torna-se um território de valor inestimável nesta lógica de acumulação. Essa transição marca mais um passo na estratégia de controle e intimidação dos países latino-americanos por parte de Washington, criando enclaves jurídicos de imunidade absoluta para militares e funcionários do governo estadunidense, como o pacto assinado pelo Secretário Marco Rubio (EUA) e o Ministro Rubén Ramírez Lezcano (Paraguai).
Imunidade e submissão: O Acordo SOFA como um Regime Jurídico para a Subordinação e a Terceirização do Estado
O documento firmado em Washington possibilita a livre atuação de militares e funcionários civis do Departamento de Guerra dos EUA em solo paraguaio. Embora o discurso oficial se esconda atrás do combate ao crime transnacional e da assistência humanitária, o conteúdo jurídico do SOFA revela uma erosão da soberania nacional paraguaia.
O ponto de maior ruptura reside na concessão de imunidade diplomática total para o pessoal estadunidense. Na prática, cria-se um território onde o sistema penal e as leis paraguaias são nulos para os militares estrangeiros, estabelecendo uma hierarquia jurídica que coloca a bota militar externa acima da legalidade do Estado receptor. Este processo de terceirização reduz o Estado a uma plataforma de serviços estratégicos para terceiros, onde a soberania deixa de ser um direito inalienável para se tornar uma utilidade gerida por cálculos de risco de uma potência estrangeira. Longe de ser uma imposição puramente externa, as elites locais participam conscientemente desta engrenagem, atuando como vetores internos da expansão geopolítica norte-americana para sufocar dissidências internas e garantir sua sobrevivência política sob a proteção do fuzil estrangeiro. Neste contexto, a partir deste acordo, o Paraguai renuncia à sua função de proteção territorial para se converter em um posto avançado de inteligência e força para o governo dos EUA.
Vigilância sem Fronteiras como Ameaça à Estabilidade da Bacia do Prata
A face tecnológica desta militarização é representada pela aquisição de sistemas de radar da empresa Northrop Grumman. O Paraguai confirmou a compra do modelo AN/TPS-78 ADCAP, o primeiro contrato do país sob o programa de Vendas Militares Estrangeiras (FMS) dos Estados Unidos. Com um custo superior a 45 milhões de dólares, o sistema promete dar ao governo Peña o controle total do espaço aéreo, mas, na realidade, entrega as chaves da região a Washington.
A localização estratégica destes radares permite que uma potência estrangeira monitore diretamente artérias vitais para o comércio e a energia de toda a região, incluindo vastas porções do território brasileiro e argentino. A capacidade de detecção de até 444 quilômetros abrange áreas críticas como a Usina Hidrelétrica de Itaipu e a Tríplice Fronteira. O argumento de que tais tecnologias visam apenas o combate ao narcotráfico é desmentido pela magnitude e sofisticação do equipamento, capaz de detectar drones e mísseis em qualquer condição climática. Trata-se de um dispositivo de monitoramento de rotas logísticas e que possibilita, também, o controle de áreas com recursos naturais, essencial para a estratégia de "segurança econômica" da Doutrina “Donroe”, transformando áreas de integração econômica regional em zonas de vigilância permanente sob comando dos EUA.
Laboratório de Sangue: O Caso Lucipar[ii] e a Militarização do Conflito Social
A militarização fomentada pelo SOFA e pela assistência tecnológica dos EUA já manifesta seus efeitos violentos nos conflitos internos por terra no Paraguai. O conflito na Estância Lucipar funciona como um laboratório social que demonstra como a lógica do "Estado-Empresa" trata as demandas populares. Esta área, confiscada do narcotráfico, deveria, por preceito do Artigo 114 da Constituição Paraguaia, ser destinada à reforma agrária. No entanto, o Estado prefere mantê-la como um ativo mercantil, utilizando o aparato de segurança fortalecido por inteligência norte-americana para reprimir movimentos camponeses.
Ao rotular camponeses como "narcoterroristas", o governo paraguaio utiliza a tecnologia de vigilância, a doutrina militar estrangeira e a linha discursiva do “Trumpismo” para realizar um "ajuste de ativos" violento. Em Lucipar, a terra não é vista como direito, mas como mercadoria a ser defendida contra a própria população, garantindo um ambiente de "estabilidade" artificial para o agronegócio e para a presença militar externa. É o esmagamento da soberania popular em nome de uma ordem imposta pelo capital transnacional.
Riscos Sistêmicos e a Urgência de uma Frente Progressista Regional
A presença militar dos EUA no Paraguai rompe o conceito de "zona de paz" que fundamentou o Mercosul. Para o Brasil e a Argentina, os riscos são imediatos: o patrulhamento fluvial ostensivo nos rios Paraná e Paraguai sob coordenação do Comando Sul (EUA) coloca sob monitoramento estrangeiro as principais vias de transporte de grãos e energia da América do Sul. A nova doutrina de Washington é explícita ao tratar a região como colônia, onde o direito de construir relações comerciais independentes é condicionado à autorização da "Metrópole".
O sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro em janeiro de 2026 serve como um aviso sombrio para os demais governos do Cone Sul sobre as consequências de desafiar a hegemonia energética e militar dos EUA sob o "Corolário Trump". Diante deste cenário de vassalização, a articulação entre as organizações progressistas do Paraguai, Brasil e Argentina torna-se uma necessidade de sobrevivência política. A Convergência Socialista, que compõe a Frente Guasu, no Paraguai, tem sido o polo de resistência contra o acordo SOFA, denunciando que a segurança do continente não pode ser pautada por interesses de balcão em Washington. A luta das organizações progressistas paraguaias é a mesma luta das organizações brasileiras pela autonomia sobre nossos recursos e pela preservação de uma política externa independente.
O Horizonte da Soberania Popular: Reafirmar a Autodeterminação Popular contra o Colonialismo Imperial
O acordo SOFA e a implementação da Doutrina “Donroe” representam um retrocesso histórico sem precedentes no processo de construção de uma América Latina soberana. Mais do que uma medida técnica, trata-se de um ato político que inscreve a região em uma estratégia global de reafirmação do poder imperial, contando com a colaboração ativa de governos locais que operam sob a lógica do lucro corporativo em detrimento do bem-estar social.
A análise dos fatos demonstra que a soberania, sob a racionalidade neoliberal e o novo intervencionismo, deixou de ser um direito inalienável para se tornar um detalhe contábil. A verdadeira segurança regional não nascerá da submissão a arsenais estrangeiros ou da imunidade jurídica concedida a tropas externas, mas da cooperação soberana entre os povos. Se permitirmos que o fuzil e o radar substituam a diplomacia e o direito internacional na Bacia do Prata, o horizonte será o do conflito permanente e da dependência estrutural, sacrificando a nossa autodeterminação no altar dos interesses estadunidenses. Neste novo capítulo da História, onde o Colonialismo Imperial se apresenta com uma nova face, mas mais perigoso do que antes, cabe às forças progressistas dos países envolvidos, buscar, a todo custo, a construção unitária da resistência. Reafirmando que a paz e a segurança só são possíveis quando baseadas na vontade popular e na rejeição absoluta a qualquer forma de tutela imperial sobre nossos territórios.
[i] Natural do Paraguai, é acadêmico do último período do curso de Ciência Política e Sociologia da Universidade Federal da Integração Latinoamericana (UNILA).
[ii] A Estância Lucipar, uma propriedade de aproximadamente 11.000 hectares, localizada no departamento de San Pedro, Paraguai, pertencia ao narcotraficante Luiz Carlos da Rocha ("Cabeza Branca"). Atualmente é administrada pela SENABICO (Secretaria Nacional de Administração de Bens Incautados e Comissados do Paraguai).