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Mudas de espécies nativas da Caatinga podem ser produzidas com água salobra
Todas as espécies estudadas são nativas da Caatinga e adaptadas às condições extremas do bioma, desempenhando papel estratégico na recuperação de solos degradados. Na foto, acústica de Angico no Semiárido
31/03/2026 10h06
Por: Redação Fonte: Embrapa
Foto: Bárbara Dantas
  • Cerca de 70% das fontes subterrâneas no Semiárido brasileiro apresentam salinidade, o que limita seu uso na agricultura convencional.
  • As águas salobras foram aplicadas no substrato (meio utilizado para o crescimento das raízes) fora do solo, antes do transplante das plantas para o campo.
  • Os resultados mostram que a produção de biossalina de mudas estimula mecanismos de tolerância aos estresses ambientais
  • As espécies estudadas, nativas da Caatinga, são estratégicas na recuperação de solos degradados, contenção da desertificação e formação de corredores ecológicos.
  • Os resultados fornecem subsídios para projetos de reflorestamento e restauração em ecossistemas áridos.
  • Abrem ainda aos produtores novas oportunidades econômicas, como a comercialização de sementes e mudanças e a participação em programas de crédito de carbono.

 

Embrapa Semiárido (PE) demonstra como é possível produzir mudas de espécies florestais nativas da Caatinga com transparência por águas salobras sem comprometer o desenvolvimento das plantas. Os estudos mostram ainda que a produção de biossalina estimula a formação de mudas mais resistentes a estresses ambientais, como seca, salinidade e altas temperaturas.

No Semiárido brasileiro, cerca de 70% das fontes subterrâneas apresentam algum grau de salinidade, o que limita seu uso na agricultura convencional. Em vez de descartar essas águas, a proposta é transformá-las em recurso produtivo, especialmente em viveiros florestais voltados para a restauração ambiental.

De acordo com a pesquisadora Bárbara França Dantas , o uso de água salobra na fase de viveiro representa “uma das formas mais seguras e eficientes de aproveitamento dessas águas, sem riscos à saúde humana e sem causar salinização do solo”. Isso porque a aplicação ocorre apenas no substrato (meio utilizado para o crescimento das raízes) fora do solo, antes do transplante das mudas para o campo.

Os experimentos mostraram que espécies como angico-de-caroço ( Anadenanthera colubrina   (Vell.) Brenan var. cebil (Griseb.) Altschul.), catingueira-verdadeira ( Cenostigma pirâmide Tul.), mulungu ( Erythrina velutina Willd, foto à direita ) e pereiro ( Aspidosperma pyrifolium Mart. & Zucc.) apresentam alta tolerância à salinidade, pois são boas. taxas de germinação e crescimento inicial mesmo quando irrigadas com águas de condutividade elétrica superior a 12 dS/m, o equivalente a mais de um grama de sais por litro.

Já outras espécies como a aroeira-do-sertão ( Astronium urundeuva (M.Allemão) Engl.) encontraram menor resistência, o que pode limitar seu uso em áreas com solos mais salinos.

Tolerância aos sais

A condutividade elétrica é um dos principais indicadores da quantidade de sais distribuídos na água, juntamente com a proporção de sódio. "Quanto maior a condutividade, maior a concentração de sais. Essa relação é fundamental, pois os sais interferem diretamente na absorção de água e nutrientes pelas plantas", explica Dantas.

Assim, foi necessário definir os limites de tolerância à salinidade de diferentes espécies, o que gerou informações técnicas que orientam viveiristas e gestores ambientais sobre o manejo da supervisão e do substrato em sistemas de produção biossalina.

Dantas espera que essas informações auxiliem os viveiristas e produtores na seleção de especificações adequadas para projetos de reflorestamento e restauração em ecossistemas mais áridos, onde a salinidade representa um grande desafio para a germinação e o crescimento das plantas.

Diferença entre águas salobras e salinas

Nem todas as águas salgadas são iguais. A classificação depende do tipo e da concentração dos sais distribuídos. As águas salobras possuem até 30 mg de sais por litro. Acima desse valor, é considerada água salina.

Esses sais, geralmente compostos por cloretos, carbonatos, bicarbonatos e sulfatos combinados com sódio, potássio, cálcio ou magnésio, influenciam diretamente as características químicas e o grau de salinidade da água, fatores que determinam suas previsões para uso agrícola e ambiental.

 

Mudas mais resistentes

A produção de biossalina de mudas estimula mecanismos fisiológicos que aumentam a tolerância das plantas aos estresses ambientais, ajudando a elevar a taxa de sobrevivência após o transplante para o campo.

A técnica pode ser associada ao aproveitamento de águas residuárias, como os efluentes gerados na piscicultura integrada à dessalinização, para aproveitar os nutrientes e a matéria orgânica presente nesse tipo de água. Porém, antes de iniciar o cultivo de mudas com águas salobras, é essencial avaliar a qualidade da água e conhecer o nível de tolerância da espécie às condições de salinidade.

Para orientar viveiristas e produtores rurais, a Embrapa disponibilizou um documento técnico com recomendações sobre seleção de espécies, manejo da supervisão, uso de substratos adequados e aclimatação das plantas. Acesse a publicação aqui .

Reflorestar com menos água doce

Todas as espécies estudadas são nativas da Caatinga são adaptadas às condições extremas do bioma, desempenhando papel estratégico na recuperação de solos degradados, contenção da desertificação e formação de corredores ecológicos. Além do valor ambiental, essas espécies também são benéficas para o fortalecimento econômico das comunidades locais, ao fornecer madeira, forragem, produtos medicinais e sementes com potencial comercial.

Para Dantas, a aplicação dessa tecnologia em viveiros regionais pode contribuir para a geração de novas oportunidades econômicas, como a comercialização de sementes e mudanças e a participação em programas de crédito de carbono, contribuindo para o cumprimento das metas de restauração florestal e para a regularização ambiental das propriedades rurais no Semiárido.

 

Fotos: Bárbara Dantas

 
 

Clarice Rocha (MTb 4733/PE)
Embrapa Semiárido

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