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Índice avalia sustentabilidade e apoia a gestão de propriedades familiares no Sul do Brasil
Reserva legal em pelo menos 20% da propriedade
05/05/2026 10h40
Por: Redação Fonte: Embrapa
Foto: Henrique Noguez da Cunha
  • Resultado da parceria público-privada, o Índice de Sustentabilidade Auera (ISA) está estruturado em novos eixos para avaliar o nível de sustentabilidade das propriedades.
  • Foram obtidas 5.283 propriedades no pré-diagnóstico, 101 no diagnóstico e 11 na etapa de intervenção e monitoramento.
  • A fornece informações e recomendações para melhorar os sistemas produtivos, considerando rentabilidade, conservação ambiental e qualidade de vida.
  • O projeto capacitou técnicos e agricultores em boas práticas agrícolas (BPAs) e na gestão sustentável dos recursos naturais e da agrobiodiversidade.
  • O ISA médio das propriedades avaliadas no Sul do Brasil foi de 78%, diminuindo a agricultura familiar da região como sustentável, apesar dos desafios no manejo de resíduos e na conservação do solo e da água.

Uma parceria público-privada criou o Índice de Sustentabilidade Auera ( ISA ) para avaliar e propor melhorias nas propriedades familiares rurais da Região Sul do País. Diferente de outros índices genéricos, o ISA inova ao integrar a dimensão produtiva aos pilares econômico, social e ambiental. A ferramenta reúne 182 indicadores que orientam a gestão rural, com foco na melhoria da qualidade de vida dos agricultores e no estímulo à permanência na atividade.

A iniciativa é um dos resultados do projeto Auera, conduzida em cooperação entre a Embrapa Clima Temperado (RS) e a Philip Morris Brasil , com apoio da Fundação de Apoio Edmundo Gastal ( Fapeg ). O projeto avaliou mais de 5 mil propriedades de produção de tabaco no Sul do Brasil e serviu como modelo para identificar gargalos, fragilidades e potencialidades.

O objetivo foi fornecer informações e recomendações para auxiliar os agricultores na melhoria dos sistemas produtivos como um todo, considerando rentabilidade, conservação ambiental (fauna, flora, solo, água) e qualidade de vida.

Os fatores que comprometem a sustentabilidade das propriedades estão, na maior parte das vezes, relacionados às formas de produção agrícola que impactam o solo, a água, a saúde dos trabalhadores e a estabilidade financeira das famílias produtoras. Muitos agricultores expressam o desejo de diversificar a produção comercial, incorporando novas atividades e sistemas produtivos. Por esse motivo, o projeto Auera buscou avaliar a propriedade como um todo, e não apenas as áreas destinadas à produção de tabaco.

Imagem mostra exemplo de uso adequado das áreas da propriedade em função da sua capacidade de uso (Google)

 

Segundo a pesquisadora Rosane Martinazzo , integrante do projeto e atual chefe-adjunta de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Clima Temperado, o trabalho buscou um modelo de produção baseado em boas práticas agrícolas para melhorar o uso e a conservação dos recursos naturais e da biodiversidade, focando na produção sustentável de alimentos e oferta de serviços ambientais. Ela explica que uma equipe multidisciplinar avaliou as propriedades, identificando gargalos, oportunidades e estabelecendo métricas de sustentabilidade. Os resultados destacam ações para melhorar a rentabilidade e a qualidade de vida dos agricultores familiares parceiros, integrando produção econômica e equilíbrio ecossistêmico.

 

Saiba mais sobre o Índice Auera

O Índice de Sustentabilidade Auera (ISA) — nome de origem tupi-guarani que significa árvore — é um sistema de avaliação criado para traduzir a complexidade das pequenas propriedades familiares. “É uma abordagem baseada na gestão integrada do estabelecimento, respeitando as particularidades da produção rural de pequena escala na Região Sul”, diz Martinazzo.

O ISA foi elaborado com base em novos eixos estratégicos:: socioeconômico, água, gestão de resíduos, solo, agrobiodiversidade, fauna, flora, geração de energia e conformidade ambiental. É um índice que atua como ferramenta de gestão diagnóstica, mensurando o nível de sustentabilidade das unidades de produção familiares. Seu processo de desenvolvimento incluiu três etapas: pré-diagnóstico (análise de um banco de dados de 5.283 estabelecimentos), diagnóstico (in loco de 101 propriedades para coleta de dados) e intervenção e monitoramento (seleção de 11 propriedades para acompanhamento).

 

Para oferecer um diagnóstico completo, o ISA organiza seus 182 indicadores em três grandes dimensões:

Social:  representado pelo eixo socioeconômico, avaliado desde a qualidade de vida e segurança alimentar da família até o acesso à educação, saúde e assistência técnica.

Ambiental:  analisa a conservação da água, gestão de resíduos, conformidade com a legislação ambiental e preservação da fauna e flora locais.

Produtiva: foco na saúde do solo (qualidade química, física e biológica) e na agrobiodiversidade, avaliando o potencial dos sistemas de produção em se manterem viáveis ​​a longo prazo.

 

Foto: Rosane Martinazzo (solo sob cultivo de mix de plantas)

 

Ferramenta apoia a gestão rural

O objetivo principal do ISA é atuar como uma ferramenta de apoio à decisão de gestão rural. Ao fornecer faixas que variam de "péssimo" a "excelente", o índice permite identificar exatamente aspectos que evidenciam oportunidades de mercado e oportunidades de melhoria.

De acordo com a metodologia proposta, uma propriedade é considerada sustentável quando atinge a marca de 70% no índice. Em um estudo aplicado em propriedades no Sul do Brasil (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná), o ISA médio foi de 78%, diminuindo que a agricultura familiar da região é, em geral, sustentável, embora ainda enfrente desafios no manejo de resíduos e na conservação do solo e da água.

Foto:  Mariana Rockenbach de Ávila (horta em propriedade familiar no RS)

 

"O ISA pode ser usado diretamente pelo agricultor, mas é uma peça-chave para a formulação de políticas públicas. Ele fornece dados precisos que podem orientar investimentos e programas de incentivo, garantindo que o desenvolvimento rural aconteça de forma equilibrada, com preservação dos recursos naturais para as futuras gerações, enquanto mantém a produtividade do campo", complementa o pesquisador.

 

Índice beneficia agricultores, extensionistas e facilita a tomada de decisão

O ISA é importante pela sua capacidade de converter a complexidade das interações no campo em dados objetivos, beneficiando diretamente três perfis fundamentais:

 

1. Para os agricultores: o "espelho" da propriedade

Para quem vive e trabalha na terra, o ISA funciona como uma ferramenta de diagnóstico e planejamento.

● Identificação de gargalos: O agricultor deixa de se basear apenas na intuição para perceber exatamente em que áreas sua propriedade está falhando (seja na conservação do solo, na gestão de resíduos ou nas previsões econômicas).

● Resiliência e longevidade: Ao focar na dimensão produtiva (saúde do solo e agrobiodiversidade), o índice ajuda o agricultor a recuperar áreas degradadas ou deficitárias, bem como garantir que o solo continue fértil e produtivo para as gerações futuras, facilitando a sucessão familiar.

● Tomada de decisão: Permite priorizar investimentos, escolhendo onde aplicar recursos escassos para obter maiores ganhos em sustentabilidade e eficiência.

 

2. Para os técnicos e extensionistas: rigor e padronização

Para os profissionais que prestam assistência técnica, o ISA oferece uma metodologia científica e estruturada.

● Monitoramento da evolução: O técnico pode utilizar o índice para acompanhar a evolução de uma propriedade ao longo dos anos, verificando se as intervenções sugeridas estão surtindo o efeito desejado.

● Linguagem comum: O ISA estabelece um padrão de avaliação, o que permite comparar diferentes propriedades ou regiões sob os mesmos critérios. Isso facilita o compartilhamento de boas práticas entre diferentes propriedades e até mesmo entre comunidades rurais.

● Amplitude da avaliação: Com 182 indicadores que podem ser obtidos de forma relativamente simples, o técnico tem em mãos um check-list de nove dimensões para avaliação da propriedade, o que garante que nenhum aspecto crítico da sustentabilidade (social, ambiental ou produtiva) seja negligenciado.

 

3. Para os tomadores de decisão: políticas baseadas em evidências

Para gestores públicos, diretores de empresas (como no caso da Philip Morris Brasil e da Embrapa) e legisladores, o índice é uma estratégia básica de governança.

  • Formulação de políticas públicas: O ISA fornece dados reais que podem orientar a criação de programas de incentivo, linhas de incentivo específicas para práticas sustentáveis ​​e projetos de conservação ambiental.
  • Métricas de impacto e ESG: Em um cenário global que exige transparência, o índice permite que empresas e gestores demonstrem, com dados auditáveis, o impacto de suas ações na agricultura familiar, alinhando-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável ( ODS ) da Organização das Nações Unidas ( ONU ).
  • Segurança Alimentar: Ao fortalecer a sustentabilidade das pequenas propriedades, os decisores garantem a estabilidade da quantidade suficiente de alimentos, uma vez que a agricultura familiar é o principal motor da segurança alimentar nacional.

Foto : Henrique Noguez da Cunha (área de cultivos e parte das instalações agrícolas)

 

Sustentabilidade na palma da mão

O Índice Auera retira a sustentabilidade do campo das ideias e a coloca na palma da mão dos atores rurais como um indicador de desempenho tangível. Ele permite que o sistema deixe de apenas reagir aos desafios para passar a prosperar de forma equilibrada, garantindo que o avanço econômico caminhe lado a lado com a conservação ambiental e o bem estar social.

O desenvolvimento do ISA envolve o envolvimento direto de mais de 20 profissionais, entre pesquisadores, analistas, técnicos, assistentes e colaboradores. O projeto reafirma o protagonismo da pesquisa colaborativa na construção de soluções para o campo. Como parte da estratégia de compartilhamento desse conhecimento, os principais resultados e metodologias serão detalhadas em um livro que já se encontra na fase final de edição.

 

 
 

Cristiane Betemps (MTB 7418/RS)
Embrapa Clima Temperado