Economia Embrapa
Guia orienta produtores de caprinos na prevenção e controle de doenças
Guia traz um conjunto de procedimentos para controlar doenças que podem colocar em risco a saúde dos animais e a produtividade dos rebanhos
12/05/2026 09h03
Por: Redação Fonte: Embrapa
Foto: Maíra Vergne
  • Guia reúne pesquisas da Embrapa sobre doenças infecciosas e demandas de caprinocultores leiteiros.
  • A iniciativa surgiu do intercâmbio entre pesquisadores, criadores, extensionistas e agentes públicos no Projeto Dom Hélder Câmara, nos estados da Paraíba e Pernambuco.
  • O objetivo principal é disseminar orientações de biosseguridade, como quarentena e cuidados na entrada e troca de animais nos rebanhos.
  • O documento traz recomendações sobre alimentação, higienização de instalações, vacinação e manejo de animais enfermos e de resíduos da produção.
  • As práticas conservadoras para o bem-estar dos rebanhos e para a redução de prejuízos com perdas de mercados consumidores no Brasil e no exterior.
  • As orientações também reforçam a prevenção de zoonoses, homologadas à abordagem de Saúde Única.

 

Os criadores de caprinos leiteiros já têm à disposição um documento com novas orientações para prevenir doenças infecciosas em seus rebanhos. O Guia para elaboração de plano de biosseguridade no controle e prevenção de doenças infecciosas de caprinos leiteiros no Nordeste explica como adotar um conjunto de procedimentos e práticas para facilitar o manejo e controlar enfermidades que podem colocar em risco a saúde dos animais e seres humanos, a produtividade de rebanhos e a qualidade dos produtos.

A elaboração do Guia é um resultado de uma trajetória de anos de pesquisa em doenças infecciosas na Embrapa e também uma demanda de criadores de caprinos leiteiros que foi lançada durante atividades de campo do Projeto Dom Hélder Câmara ( PDHC ) entre 2019 e 2023 nos estados da Paraíba e Pernambuco. Segundo Selmo Alves , pesquisador da área de Sanidade Animal da Embrapa Caprinos e Ovinos (CE), a interação com os produtores mostrou alguns aspectos que podem ser melhorados com orientações específicas de manejo e inovações por meio de planos, em conjunto entre criadores, extensionistas e agentes públicos.

“Verificamos a necessidade de uma orientação para biosseguridade, envolvendo questões como quarentena e outros cuidados na entrada e trocas de animais nos rebanhos, para que tudo seja feito com melhor classificação sanitária”, explica Alves, um dos autores do Guia. “Vimos uma ânsia de informações muito grande, por parte de técnicos e de produtores, sobre como ter um rebanho mais saudável, aumentando produção e qualidade”, acrescenta Rizaldo Pinheiro , também pesquisador da Embrapa Caprinos e Ovinos e outro autor da publicação.

No Guia estão recomendações de protocolos para quarentena e monitoramento de animais, vacinação, higienização de instalações, nutrição e manejo adequado de animais enfermos e de resíduos da produção. A publicação traz também um anexo com um checklist que permite aos usuários verificar o cumprimento das orientações de manejo nas propriedades sanitárias, assim como melhorias que podem prevenir as doenças agalaxia contagiosa, artrite encefalite caprina, clamidiose, paratuberculose e toxoplasmose, por exemplo.

A ideia da publicação com informações acessíveis ao público liberado produtores rurais como Geneci Lemos, de Coxixola, na região do Cariri Paraibano. “É excelente, algo essencial para fazermos um controle e acompanhar os rebanhos”, ressalta. O criador, que há anos é parceiro da Embrapa em projetos de pesquisa e transferência de tecnologia, destaca que a troca de informações sobre biosseguridade para seus rebanhos já trouxe autonomia e melhorias na rotina da atividade.

"Com o aprendizado dos cursos, dos dias de campo, hoje eu sei coletar fezes de uma cabra para fazer OPG [e exame de contagem de ovos de larvas em fezes de animais, que mensura o grau de infecção por verminose ], dou remédios se for preciso, entre outras atividades mais básicas. Com essas informações, já consigo evitar vários prejuízos", frisa Geneci.

Para o médico-veterinário Flávio Mergulhão, que integrou as ações da Embrapa no Cariri Paraibano como bolsista do PDHC e hoje atua na região pelo projeto InovaCapri, o Guia traz a vantagem de ser referência para um roteiro de procedimentos sanitários que podem ser monitorados por técnicos, consultores e produtores rurais. "Um monitoramento analítico identificaria pontos estruturais de propriedade e falhas no manejo que auxiliam na disseminação das adversidades sanitárias. Dessa forma, é possível direcionar ações preventivas e de tratamento de enfermidades", explica Mergulhão.

Além do potencial de promoção do bem-estar aos rebanhos, a elaboração do Guia também tem o objetivo de evitar que os caprinocultores sofram prejuízos por impactos de doenças na qualidade do leite e consequentes perdas nos mercados consumidores. Alves ressalta que a contaminação de doenças infecciosas pode tornar o leite inadequado para o processamento e para a comercialização nos mercados do Brasil e do exterior.

"Quando um mercado se abre para o leite caprino brasileiro, as primeiras exceções que outro país adota é analisar, em consulta ao Ministério da Agricultura e Pecuária ( Mapa ), que tipos de doenças podem contaminar os rebanhos locais. Essa questão de mercado é muito delicada", frisa o pesquisador.

 

Fotos: Rizaldo Pinheiro (aplicação de medicamentos) e Juliana Sussai (cabrito da raça caprina naturalizada Marota)

 

 

Saúde Única e prevenção de zoonoses

A preocupação em divulgar boas práticas de manejo para controle e prevenção de doenças na caprinocultura leiteira também contempla uma questão mais abrangente, relacionada à estratégia de Saúde Única. Algumas doenças que acometem os animais são zoonoses, ou seja, são capazes de infectar pessoas e trazer riscos à saúde humana.

"Não podemos estudar uma doença de forma estanque, só em uma espécie. No período das pesquisas no PDHC, ouvimos relatos de que vários produtores rurais tiveram questões com a toxoplasmose: problemas neurológicos, oculares e até relacionados a abortos. É uma doença problemática e hoje disseminada em todo o Nordeste", alerta Pinheiro.

Um exemplo dessa abordagem integrada para a saúde só aconteceu durante a execução das ações do PDHC, quando a prevalência elevada de toxoplasmose em rebanhos da região chamou a atenção da equipe do projeto. Eles convidaram secretários de saúde dos municípios para uma reunião em 2021, que discutiram os riscos de contágio para a saúde humana. “Dessa forma, os secretários podem correlacionar a doença a casos clínicos em humanos, como problemas de visão e crianças infectadas por agentes teratogênicos [ que atuam durante a gravidez e podem ocasionar problemas como malformações ou até mesmo mortes de bebês ]. A toxoplasmose pode ser transmitida via leiteiros caprinos, por meio do consumo de leite cru ou da carne sem tratamento precoce”, detalhando Flávio Mergulhão.

Para Pinheiro, essa estratégia de foco em saúde única também é uma vantagem do caráter participativo das orientações para a construção de planos de biosseguridade. Ao reunir produtores, técnicos e profissionais de forma multidisciplinar em sua elaboração, essas ações podem identificar problemas e soluções de forma mais abrangentes e completas. "Muitas vezes um médico vai para o campo, fica centrado na ocorrência de doenças humanas e algumas zoonoses podem ser superadas. A partir de um alerta sobre a prevalência do problema, isso pode facilitar o diagnóstico, tratamento e tempo de resposta", diz.

Foto: Adilson Nóbrega (alimento no cocho)

 

Aplicação e rotinas de manejo

Ao disponibilizar orientações a respeito do manejo sanitário, a ideia do Guia é trazer aos agricultores, extensionistas e gestores públicos informações que servem como referência para a saúde animal e a saúde pública. Uma das ferramentas apresentadas na publicação é um formulário de diagnóstico para que as propriedades rurais possam monitorar o cumprimento das normas sanitárias.

Segundo Alves, o formulário atende a um contexto da caprinocultura leiteira, atividade predominantemente composta por agricultores familiares, que necessita de cuidados com aspectos como transporte de animais, a qual pode exigir medidas de isolamento e quarentena. "Na propriedade, na aquisição e na troca de animais, bem como na participação em feiras e exposições, desativar medidas preventivas para reduzir o risco de transmissão de doenças. Além disso, técnicos e produtores devem observar alterações comportamentais no rebanhos, como isolamento ou ausência de animais nas instalações, pois esses sinais podem indicar possíveis problemas sanitários", exemplifica Alves.

O formulário permite que o produtor observe questões relacionadas às instalações e equipamentos; condições de alimentos e água; protocolos de entrada de pessoas e de veículos na propriedade; e descarte de resíduos da produção. “Acredito que esse Guia auxiliará muito técnicos e produtores na entrega de produtos melhores, além de maior produção e satisfação, impactando diretamente o bem-estar do animal e das famílias”, observa Pinheiro.

Além de Alves e Pinheiro, o Guia também conta com a coautoria de Alice Andrioli (pesquisadora da Embrapa Caprinos e Ovinos) e das zootecnistas Zenaide Olímpio e Ana Milena Lima, que atuaram como bolsistas no PDHC.

 

Foto à direita: Rizaldo Pinheiro (depósito de ração)

 

 

Recomendações para biosseguridade

O controle e a prevenção de doenças infecciosas requerem uma adoção integrada de medidas de biosseguridade externa, voltadas ao controle antecipado para evitar a introdução de agentes causadores de doenças na propriedade, e interna, direcionada ao controle dos fatores de risco dentro da propriedade rural. As principais medidas recomendadas no Guia são:

 

  1. Biosseguridade externa

  • - Quarentena e monitoramento: período de isolamento para animais recém-adquiridos, com monitoramento da saúde para detecção precoce de enfermidades;
  • - Controle de entrada de animais e de materiais genéticos: exames clínicos, diagnósticos e infecções;
  • - Cercas externas para limitar o acesso de animais domésticos de vizinhos e de animais selvagens, que possam ser portadores de doenças;
  • - Controle de visitantes: medidas rigorosas para visitantes e técnicos, como o uso de vestimentas e calçados adequados;
  • - Limpeza e desinfecção de veículos e equipamentos antes de entrar na propriedade, para evitar a propagação de patógenos;
  • - Pedilúvios (recipientes que contêm solução desinfetante): instalação na entrada da propriedade para a desinfecção de calçados e pneus.

 

2) Biosseguridade interna

  • - Separação por categoria: manter animais separados por faixa etária ou categoria produtiva para reduzir o risco de transmissão de doenças entre grupos;
  • - Isolamento de animais doentes: isolar rapidamente animais com sintomas, tratando-os em áreas separadas para evitar que a doença se espalhe pelo restante dos rebanhos;
  • - Manejo sanitário: cumprir rigorosamente os planos de vacinação e de vermifugação, orientados por médicos-veterinários;
  • - Higiene dos alimentos: fornecer água potável limpa e alimentação balanceada, armazenando rações em bombas plásticas fechadas para evitar contaminação por roedores e insetos;
  • - Controle de regras: implementar o controle integrado de regras, instruções e outras regras dentro das instalações;
  • - Destino adequado de resíduos: descartar restos de placenta, fetos abortados e animais mortos, utilizando locais apropriados como composteiras ou áreas de descarte que sigam normas sanitárias;
  • - Uso de esterqueiras: armazenar o esterco em local isolado e adequado para garantir sua atmosfera controlada e evitar a contaminação ambiental;
  • - Limpeza das instalações: manter um cronograma de limpeza e privacidade de comedouros, bebedouros e equipamentos de ordem.

 

Foto: Rizaldo Pinheiro (animais jovens separados)

 
 

Adilson Nóbrega (MTB/CE 01269 JP)
Embrapa Caprinos e Ovinos

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