As abelhas do Refúgio Biológico Bela Vista (RBV), da Itaipu Binacional, ganharam os holofotes na etapa de Foz do Iguaçu do Pint of Science, maior festival de divulgação científica do mundo.
A cerveja oficial do evento na cidade, a ItaiIPA, foi produzida a partir de leveduras coletadas em colmeias de abelhas nativas Jataí (Tetragonisca fiebrigi), no Refúgio da Itaipu, em parceria entre a pesquisadora da USP Carola Carvalho e a Cervejaria Kiun. O resultado foi uma cerveja leve (apenas 3,7 de teor alcoólico), saborosa, que reúne biodiversidade, pesquisa e conservação da Mata Atlântica.
Carola se intitula caçadora de leveduras. “Eu trabalho com leveduras selvagens e uma das minhas linhas de pesquisa é de leveduras de abelhas nativas. Em uma das vezes que vim para Foz, fiquei sabendo que existia um meliponário no Refúgio Biológico e entrei em contato com a Itaipu para conseguir a autorização para coletar amostras. Conheci todo o espaço e foi muito interessante ver que na Itaipu existe toda essa preocupação com a conservação”, contou.
A cientista trouxe ao público do PintFoz a palestra “Da Colmeia ao universo: sonhos de uma levedura viajante”’. Ela falou na noite desta terça-feira (19), no Mercado Público Barrageiro, sobre Space Beer Project, trabalho do qual é idealizadora e que une cultura cervejeira, astrobiologia e biotecnologia. O estudo investiga a relação de leveduras selvagens em contextos de exploração espacial e produção de alimentos e bebidas, inclusive cerveja, fora do planeta.
“A área dentro de uma espaçonave é muito limitada, então temos que pensar em como ter coisas que são básicas para a sobrevivência, como comida, água, combustível e fármacos. E como levar tudo isso? Uma das ideias é ter micro-organismos que sirvam como biofábricas. Um deles é a levedura, que já é conhecida da humanidade há milhares de anos. Aí veio a ideia do Space Beer. Nós vamos desbravar o universo com um copo de cerveja na mão”, brincou.
Na projeção da colonização de outros astros, a pesquisadora explicou que “alguns tipos de leveduras são extremófilos, ou seja, conseguem sobreviver em situações extremas. São super adaptáveis a essas condições. Se esse micro-organismo consegue existir nessas condições inóspitas, também vai sobreviver aos ambientes de outros planetas”, disse.
O técnico ambiental Lucas Tres, empregado da Divisão de Áreas Protegidas (MARP.CD) e responsável pelos projetos de conservação de abelhas no RBV, contou que a descoberta da cientista de que esses micro-organismos também tinham potencial para a produção de cerveja reforçou como as abelhas podem contribuir para diferentes áreas da ciência e da biotecnologia. “Além de fazerem parte da saúde da colônia e da produção do mel, as leveduras mostraram potencial para gerar produtos que podem ser utilizados pelas pessoas”, afirmou.
Lucas destacou ainda que o projeto de conservação das abelhas nativas do Refúgio Biológico existe desde 2018 e atualmente conta com cerca de 200 caixas de 12 espécies distribuídas em cinco meliponários. O trabalho busca preservar espécies fundamentais para a manutenção da Mata Atlântica, fortemente afetadas pelo desmatamento e pelo uso de agrotóxicos. Ele também ressaltou que a participação no Pint of Science ajuda a aproximar o público da pesquisa científica e da conservação ambiental. “Trazer as abelhas para um evento como esse facilita que mais pessoas entendam a importância desses animais para o equilíbrio ecológico e para a nossa própria sobrevivência”, disse.
A estudante de veterinária Gabrielly Vitoria Zilli acompanhou a palestra e se surpreendeu com a proposta de utilizar leveduras selvagens em projetos ligados à exploração espacial. “Achei incrível essa ideia, ainda mais sabendo que algumas leveduras foram extraídas aqui de Foz, no Refúgio Biológico”, comentou.
Gabrielly elogiou ainda o formato do Pint of Science. “Aqui as pessoas podem conversar, comer, beber e aprender ao mesmo tempo. Isso deixa a ciência mais próxima de todo mundo”, afirmou.
Ciência com diversão
O Pint of Science surgiu em 2013, no Reino Unido, com a finalidade de promover a aproximação entre a ciência e a sociedade por meio de um diálogo acessível entre pesquisadores e o público, em locais informais, a fim de despertar o interesse pela ciência e tecnologia.
A edição de 2026 acontece nesta semana, entre 18 e 21 de maio, em quase 400 cidades de todo o mundo, com o lema “Um Brinde à Ciência”. Em Foz do Iguaçu, o evento é realizado pela Universidade da Integração Latino-Americana (Unila), com apoio do Itaipu Parquetec, Parque Nacional do Iguaçu/ICMBio e Parque das Aves.
Marco Polo Gomes de Azevedo é o coordenador do PintFoz desde 2024. “A ideia é levar ciência, conhecimento e diálogo para fora das universidades, em locais descontraídos, como o Mercado Público Barrageiro e outros bares da cidade. A gente vê com muita importância essa aproximação da população com a academia para que as pessoas possam saber quem são os pesquisadores, o que eles estão fazendo e o que há de legal sendo desenvolvido na região”, afirmou.
O Pint of Science volta à mesa do Mercado Público Barrageiro nesta quinta-feira (21), a partir das 19h, com entrada gratuita e novas discussões que prometem aproximar ainda mais a ciência do cotidiano do público. Kananda Eller aborda o tema “Ciência decolonial” e Cláudio Alexandre de Souza, pesquisador da Unioeste, percorre as profundezas do cérebro humano para responder “De onde vem a criatividade?”.
Legendas:
Pesquisadora da USP Carola Carvalho.
Lucas Tres, responsável pelos projetos de conservação de abelhas no RBV.
Gabrielly Zilli, estudante de veterinária.