
Marechal Cândido Rondon – 10/01/2026
Olá, caro leitor, cara leitora!
Minha intenção era estrear esta coluna com um texto mais ameno. No entanto, a conjuntura ditou seus termos e aqui estou, prestes a assinar um artigo de opinião que, provavelmente, não agradará nem a gregos, nem a troianos.
Dada a repercussão do fato na imprensa em geral e nas redes, o tema não poderia ser outro: o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia parece ter chegado ao seu ato final. No último dia 9 de janeiro de 2026, os embaixadores da União Europeia deram o aval preliminar ao tratado, pavimentando o caminho para uma assinatura prevista para o próximo dia 17 de janeiro, no Paraguai.
Embora figuras públicas de diferentes espectros políticos estejam comemorando este acordo, eu vejo este desfecho com profunda preocupação. Serei, possivelmente, alvo de críticas por parte de ânimos mais exaltados, mas sinto-me na obrigação de ponderar o que muitos preferem ignorar.
Este acordo carrega em seu âmago a mesma ideologia neoliberal do Consenso de Washington, que nos anos 90 iniciou o desmonte do Estado brasileiro. É herdeiro direto de uma visão que tentou nos empurrar para a ALCA e que cristalizou o mantra da nossa suposta "vocação" para sermos uma economia puramente agromineral exportadora. Na prática, o texto atual retoma termos de 2019 que preservam a essência de uma política sem compromisso com o desenvolvimento soberano.
Estamos diante de uma assimetria flagrante: o acordo prevê a eliminação de tarifas para 91% dos bens industriais europeus no Mercosul, enquanto a Europa abre seu mercado de forma muito mais restrita para os nossos produtos. Conforme analisa o economista Paulo Nogueira Batista Jr., em artigo publicado no jornal Brasil de Fato no dia 18/12/2025, o tratado é "apelidado de acordo ‘carros por vacas’"[2], cujas regras "pouco alteram nossa participação no mercado europeu"[3]. Para ele, o resultado das negociações configura um verdadeiro "7 x 1 para contornar as resistências ao acordo no interior do bloco", uma vez que "as cotas são tão rigorosas que representam apenas 1% do consumo europeu"[4] para produtos sensíveis como carne bovina e etanol.
Pior ainda: o que já era ruim tornou-se temerário. Batista Jr. destaca que, para contornar resistências internas, a União Europeia inseriu uma regra de salvaguarda prevendo que, "em caso de aumento de importações em míseros 5%, a União Europeia possa deflagrar investigação expedita [...] para suspender as condições preferenciais"[5]. Ou seja, enquanto abrimos nosso mercado para produtos de alto valor agregado, eles mantêm o controle absoluto e o poder de fechar as portas ao menor sinal de concorrência.
A Via Campesina Brasil foi certeira ao alertar, ainda em 2024, que este tratado assume um caráter neocolonial. Ele ameaça a agricultura camponesa e entrega nossos bens comuns ao capital internacional, consolidando o Brasil como o "celeiro do mundo" — um eufemismo para um país que sucateia sua indústria e aprofunda a dependência do agronegócio exportador.
Enquanto as economias centrais, como os Estados Unidos, adotam medidas protecionistas para reindustrializar seus territórios, o Brasil parece andar na contramão da história, adotando um evangelho de livre comércio que já caducou.
Reflita comigo: é realmente "uma boa" para a nossa população aprofundar a dependência de um setor que, historicamente, representa o coronelismo e a subserviência, apenas para garantir privilégios a uma pequena elite agrária?
Não pretendo, com este breve texto, dar respostas prontas, mas busco provocar uma reflexão sóbria: não seria o momento de o Brasil abandonar essa lógica que, há 500 anos, nos relega a um papel periférico no tabuleiro das nações? A resposta, com certeza, virá com a história, mas, infelizmente, esta costuma ser implacável quando o erro já se tornou fato consumado.
Pense nisso!