
Neste segundo artigo da série, dando continuidade à análise da erosão das normas internacionais que estamos, todos, assistindo ao vivo, precisamos encarar a transformação na própria essência do conceito de Estado-Nação frente ao Artigo 2º da Carta da ONU, que prevê a igualdade entre as nações. Se a racionalidade neoliberal — conforme diagnosticada por Pierre Dardot e Christian Laval — busca transformar o indivíduo em um mero empresário de si mesmo, a diplomacia, quando contaminada por essa racionalidade, passa a operar em uma lógica que pode ser denominada como de pejotização das relações internacionais. Tal fenômeno marca uma passagem do ente político tradicional — Estado-Nação — para o Estado-Empresa.
A origem deste fenômeno é histórica, e é preciso olhar para o passado para entendermos o momento presente, sua origem está na fusão entre o poder do capital financeiro monopolista — visto por Lênin como a fase superior do capitalismo — que impôs a sua lógica própria de mercado e os organismos estatais e supraestatais.
Historicamente, o imperialismo clássico caracterizou-se pela busca de territórios e matérias-primas, ao mesmo tempo que buscava abrir mercados de consumo para a exportação de produtos manufaturados. Desde o advento do neoliberalismo, principalmente a partir da década de 1990, essa lógica evoluiu. Sem renunciar às imposições do passado, os países centrais (entenda-se aqui, principalmente, os EUA) passaram, também, a atuar na imposição de regras e padrões jurídicos, ditando como os países periféricos devem se comportar legalmente para serem aceitos no cenário global.
Com essa mudança, os governos destes países começam a secundarizar o que deveria ser o objetivo principal de um Estado — o de proteger o bem-estar da sociedade — para agirem como gerentes de investimentos, focados em administrar lucros e evitar prejuízos de uma pequena minoria de sua “elite” nacional que é, ao mesmo tempo, altamente dependente das elites dos países centrais. Com a crise global de 2008, essa mudança acelerou: os Estados periféricos são obrigados, no cenário global, a cada vez mais tratarem sua própria soberania como um ativo mercadológico, cujo valor depende da avaliação de risco feita por agências estrangeiras e da conformidade — o ajuste às normas — aos interesses financeiros mundiais.
Nesse contexto, o uso da força não serve mais para defender a justiça internacional clássica, mas assume a função de um ajuste de ativos, agindo para corrigir situações que ameaçam o lucro e a estabilidade dos negócios de determinados grupos que controlam a política e a economia dos Estados centrais.
Sim! Eu sei o que você, caro leitor, está pensando: “Mas sempre foi assim!”. Me permita, aqui, um breve interlúdio: de maneira geral, a força militar, ou a coerção econômica, quando utilizada pelos Estados centrais contra um determinado Estado periférico, sempre teve como objetivo a defesa dos interesses econômicos das elites destes mesmos Estados centrais. No entanto, até bem pouco tempo, havia um “verniz de civilidade” nas relações internacionais! Pois se, de um lado, tínhamos essa constante no uso da força para a coerção egoísta, muitas vezes disfarçada com argumentos humanitários, de outro, tínhamos a constante tentativa de regulação das relações entre Estados e uma busca no foco da aplicação da Carta das Nações Unidas. Já o que enxergamos, no momento, é uma deterioração e um enfraquecimento deste frágil equilíbrio que se construiu no pós-guerra. E a criação do autoproclamado “Conselho da Paz” é um marco simbólico nesse processo de deterioração.
Fechado o interlúdio, voltemos ao tema principal. Esse ajuste de ativos, ou gestão de riscos (falando aqui a partir do ponto de vista do Estado que intervém no outro), assume faces diferentes dependendo do alvo. Analisemos duas das situações mais recentes:
1. No caso da Venezuela, por ser um Estado soberano, o país é tratado como se fosse uma empresa em regime de insolvência: o bloqueio de recursos, as sanções buscam e, até mesmo, o sequestro de Nicolas Maduro, buscam forçar uma troca de gerência — ou mudança de governo/regime — para que a nação volte a ser, na visão destas elites, um parceiro confiável para o Mercado. Se a gerência deste Estado-empresa se adapta, aceitando as regras impostas, para estas elites pouco importa quem se senta na cadeira presidencial ou as consequências desta intervenção para a população deste mesmo Estado.
2. Já na Faixa de Gaza temos uma situação ainda mais trágica, onde a crueldade da racionalidade neoliberal atinge o seu limite. Por não possuir um Estado plenamente reconhecido que sirva de escudo jurídico, o território palestino é tratado como um risco operacional. Ali, a invasão não busca apenas uma mudança política, mas, utilizando um termo contábil: busca a liquidação do passivo. Em outras palavras, a meta é a eliminação ou deslocamento da população local, de forma a garantir, às elites do Estado invasor, o controle total da área e dos recursos. Cito aqui, como exemplo, o próprio plano para a reconstrução de Gaza apresentado por Donald Trump que não prevê, em nenhum lugar, a assistência aos palestinos que lá residem insinuando, inclusive, que estes “estão livres para abandonar o território”, ao mesmo tempo que prevê a construção de uma espécie de área resort no território invadido pelo atual governo de Israel.
Em ambos os casos, as intervenções não buscam a justiça ou a democracia, mas sim forçar a formatação do Estado (ou território) às regras do jogo econômico, mesmo que isso custe milhares de vidas. Com essa “formatação”, o governo do Estado/Território vítima torna-se um mero gerente de contratos externos, sacrificando a autodeterminação de seu próprio povo no altar da rentabilidade financeira.
No terceiro artigo desta série iremos tratar sobre possíveis saídas que impeçam a consolidação desta lógica altamente destrutiva das relações humanas nas relações internacionais.
por Luciano Egidio Piltz Palagano¹
Toledo - PR, 31/01/2026
¹ Historiador, repórter fotográfico, astrônomo amador e divulgador científico.