
Jaleh é uma menina alegre, com nove anos e vive, com seus pais e avós paternos, em uma casa de paredes claras em Minab, uma cidade quente, ao sul do Irã. O ambiente familiar é de expectativa: sua mãe, Nazanin, está grávida de seis meses. Jaleh já escolheu o lugar onde guardará os brinquedos para compartilhar com o irmãozinho e, todas as noites, antes de descansar, ela costuma encostar o rosto na barriga da mãe para sentir os movimentos do bebê.
Naquela noite de sexta-feira, porém, o sono demorou a vir. Havia uma prova importante na manhã seguinte e o peso da responsabilidade falava mais alto que a vontade de sonhar. Sentada na beira da cama, sob a luz fraca do abajur, ela revisava as anotações sobre as divisões e multiplicações, se preparando para a prova que teria no dia seguinte. Jaleh estudou cada linha do caderno com atenção até que o sono começou a se impor. Mesmo assim, já cansada e com sono, tentou estudar uma meia hora a mais, e quando sentiu que estava pronta, ela se deitou e finalmente dormiu.
O dia 28 de fevereiro de 2026 surgiu trazendo um calor seco, comum para a região de Minab. Jaleh acordou cedo, sentindo o aroma que vinha da cozinha. Sua mãe, apesar do cansaço da gestação, já preparava o café e organizava o lanche que a filha levaria. Era uma rotina de cuidados que se repetia cotidianamente, sem muitas mudanças. Jaleh colocou o uniforme, conferiu os lápis, cadernos e outros materiais na mochila e despediu-se de seus pais e avós com um beijo rápido.
Como morava a poucas quadras da instituição de ensino, ela sempre caminhou para a aula. No ponto de encontro habitual, por volta das oito horas, encontrou suas amigas: Roxana, de oito anos, Mahsa, com dez anos, e a pequena Raika, com apenas sete anos. O grupo seguia pelas ruas quentes entre risadas e segredos infantis. Jaleh falava com entusiasmo sobre o irmãozinho que estava crescendo rápido na barriga da mãe, e sobre como estava ansiosa em conhecê-lo. Distraídas com as brincadeiras e os planos para o futuro, as quatro meninas acabaram se atrasando alguns minutos.
Ao chegarem na escola Shajareh Tayyebeh, o portão de ferro já estava sendo encostado. Elas correram pelo pátio, despedindo-se rapidamente. Raika e Mahsa seguiram para salas diferentes, enquanto Jaleh e Roxana, que estudavam na mesma turma devido à pequena diferença de idade, entraram quase sem fôlego na sala de aula.
A professora olhou por cima dos óculos, sinalizando o atraso com um gesto suave e uma breve recriminação no olhar, e indicou as carteiras para as meninas. O clima na sala era de concentração; as provas já haviam sido distribuídas. Jaleh sentou-se, respirou fundo e começou a resolver as questões de aritmética. Lá fora, o mundo parecia distante, mas a guerra — que até então era apenas um assunto sério discutido pelos adultos em tons baixos — estava prestes a se materializar da forma mais cruel.
Quando a prova já seguia com quase duas horas de duração, próximo ao horário do recreio, deu-se o primeiro barulho. Foi um estrondo seco, um trovão que não vinha do céu, mas do solo. O chão da sala de aula vibrou violentamente, e o som dos vidros das janelas estilhaçando preencheu o ambiente. Jaleh e todos na sala, incluindo a professora, assustados, tentavam entender o que estava acontecendo! O primeiro míssil atingiu a ala leste do prédio, onde as crianças mais novas, como Raika (a amiga mais nova de Jaleh), estavam. O impacto jogou Jaleh para longe de sua carteira!
No meio da poeira de gesso e do caos, a solidariedade humana tentou prevalecer. Professores e moradores da vizinhança correram para os escombros para retirar as meninas feridas. Foi nesse momento que ocorreu o segundo impacto: um ataque duplo. Um novo artefato atingiu a área onde os socorristas e as crianças sobreviventes, incluindo Jaleh, se aglomeravam.
Jaleh sentiu uma dor aguda que parecia atravessar todo o seu corpo, um zunido profundo em seus ouvidos e uma sensação de queimação que abafava qualquer pensamento. Ela tentou chamar por Roxana, tentou procurar pela mochila, mas sua voz não saía. Pensava em sua mãe, seu pai, seus avós, suas amigas, no seu irmãozinho que tanto queria conhecer. De repente, o tumulto de gritos e sirenes foi substituído por um silêncio opressor, como se o tempo tivesse parado.
A luz do sol, que antes entrava pelas janelas, foi bloqueada por uma nuvem densa de detritos e fumaça negra. Jaleh foi mergulhada em uma escuridão profunda, onde o rosto de sua mãe e a imagem do irmãozinho começaram a desbotar na sua memória. Não houve tempo para explicações geopolíticas ou justificativas militares. Ali, entre cadernos rasgados e sonhos interrompidos, o único fato que restava era o fim. Sem conseguir lutar contra o peso que esmagava seu peito, Jaleh deu seu último e involuntário adeus a um mundo que não soube protegê-la. Um mundo controlado por senhores da Guerra, onde crianças são passivos a serem descartados, e efeitos colaterais a serem ignorados.
Naquela manhã quente, em Minab, a prova de aritmética ficou sem nota, e a casa de Nazanin permaneceu com um lugar vazio à mesa, aguardando por uma filha que nunca mais voltaria para o café.
Obs. Jaleh, Raika, Mahsa, Roxana e Nazanin são personagens fictícios que, neste conto, tentam representar as mais de 160 crianças assassinadas pelo ataque dos EUA e Israel à escola de Shajareh Tayyebeh no dia 28 de fevereiro de 2026. Assim como Nazanin representa as centenas de mães, pais e avós que perderam suas crianças para aquele ataque infame. Se este conto servir, por um momento, para que você reflita sobre os verdadeiros horrores de qualquer guerra, este autor terá alcançado o seu objetivo.
Toledo, 10 de março de 2026.
Luciano Egidio Piltz Palagano