
Caros leitores, no texto desta semana eu convidei um amigo para escrever comigo, então vocês irão ler um texto escrito a quatro mãos. Um texto sobre divulgação científica, inverdades e o cuidado necessário quando se busca dialogar sobre temas complexos.
Logo após o lançamento da “Órion” pela missão “Artemis II”, no dia 01/04, começaram a circular nas redes sociais (Instagram, Facebook, WhatsApp) algumas publicações comparando a fotografia da Terra[1] feita pelo astronauta Reid Wiseman no segundo dia da missão “Artemis II” com a famosa fotografia "Blue Marble”[2], registrada pela tripulação da “Apollo 17” em 1972. Nessas postagens, usa-se a diferença de tonalidade entre as duas imagens para se afirmar que a Terra teria perdido seu brilho azul cristalino devido à poluição das últimas décadas. Todos que nos acompanham, há muito tempo, conhecem nossa posição sobre o debate climático. E seria tentador reforçar essa “notícia”, no entanto, também temos compromisso com a verdade científica, e devido a isso, gostaríamos de dizer a vocês: essa afirmação é falsa. Não sabemos a origem dessa narrativa, mas como toda notícia falsa ela usa verdades incompletas e falta de fundamento técnico para construir a determinada narrativa, os quais iremos explicar.
A imagem clássica, capturada a partir da “Apollo 17” foi registrada enquanto a nave sobrevoava o lado iluminado da Terra; ou seja, o registro foi feito do hemisfério que, naquele momento, estava voltado para o Sol. Já a foto mais recente, da missão “Artemis II”, foi tirada enquanto a nave passava pelo hemisfério que não recebia iluminação solar. Em termos simples: a “Apollo 17” registrou o dia, e a “Artemis II” registrou a noite. Uma coincidência poética, por sinal! Afinal Apolo é associado ao Sol, enquanto sua irmã, Ártemis, é ligada pela mitologia à Lua. Se observarmos o arquivo original da fotografia feita à partir da “Artemis II” notamos que entre os seus metadados, são informadas as seguintes configurações: ISO 51200, Compensação de exposição +1, velocidade do obturador 1/4 e abertura f/4.0. Tal configuração da câmera, ao tirar a fotografia, permitiu que se fizesse um registro do lado noturno do planeta onde, mesmo com a ausência de luz, foi possível registrar alguns detalhes do objeto, dando a impressão de que o objeto fotografado estava mais claro do que realmente estava aos olhos, no momento. No entanto, esse ajuste permitiu uma maior entrada de luz na câmera, mas, ao mesmo tempo, resultou em uma imagem sem tanto contraste e cor.
Após o registro a imagem ainda passou por um processo de edição para, só depois, ser divulgada. Uma edição que realçou pontos luminosos, como concentrações urbanas, auroras e outros efeitos atmosféricos visíveis apenas do espaço durante a noite, mas preservou a coloração da imagem original de forma a deixar explícito que o lado fotografado não estava sendo iluminado pelo Sol no momento do registro. Em outra imagem[3], feita algum tempo depois, mas com configurações de câmera diferentes, é possível perceber, muito bem, que o lado da Terra registrado pela câmera foi o lado noturno. Ou seja, as configurações da câmera somadas ao tratamento digital clarearam a imagem, ao mesmo tempo que fizeram com que ela ganhe tons mais opacos e acinzentados. Efeito visual que tem alimentado legendas especulativas sem qualquer base em dados técnicos. É preciso lembrar que quando falamos em edição de imagem, principalmente imagens científicas, busca-se preservar o máximo possível da imagem original e, neste caso, para que isso fosse possível, trabalhou-se principalmente com a luz do registro, e não com as cores do objeto fotografado.
Com isso, o resultado foi uma imagem mais clara, mas também um tanto quanto desbotada e, até mesmo, um pouco acinzentada, afinal nós estamos olhando para a noite e a luz que a câmera capturou foi, justamente, o reflexo da luz que a Lua emitia em direção à Terra naquele momento, sendo gravada no sensor da câmera pelo tempo de ¼ de segundo. Era a Terra iluminada pela Lua! E quem nunca saiu ao luar? Todos aqui que, uma vez na vida, caminharam sob a Lua cheia sabem que é possível enxergar, mas não é possível distinguir cores sob a luz da Lua. Assim, é um erro comparar uma foto do lado diurno com uma foto do lado noturno que passou por clareamento artificial. E mais errado ainda é fazer isso sem informar o público dessa diferença de ambos os registros, insinuando que as duas fotos foram feitas em condições semelhantes.
É possível observar o impacto da ação humana a partir de fotos feitas no espaço? Sim! É possível! Mas não com esse tipo de comparação. Você pode perceber essa influência utilizando registros feitos a partir do espaço ao contrastar imagens feitas em posições semelhantes e configurações semelhantes, mas distantes no tempo. Em situações como estas você vai conseguir perceber o avanço do desmatamento, o processo de desertificação de áreas que antes eram agricultáveis, o recuo das calotas polares e das geleiras em picos montanhosos... enfim: é possível utilizar registros feitos do espaço para dialogar e conscientizar sobre as mudanças climáticas, mas é preciso fazer isso da maneira correta! Propagar inverdades ou confundir a população com discursos sem embasamento técnico não ajuda na sensibilização sobre as mudanças climáticas e até tira parte da confiança em todos que trabalham arduamente na conscientização.
Temos evidências reais do colapso climático no nosso cotidiano, imagens do espaço, quando utilizadas da maneira correta, são interessantes para comparações ao longo do tempo, mas outras evidências muito mais diretas estão em nosso dia a dia e se tornam cada vez mais comuns, apesar de serem, geralmente, ignoradas. Eventos como as cheias avassaladoras no Rio Grande do Sul, os três tornados simultâneos que atingiram o Paraná, com um deles “varrendo” a cidade de Rio Bonito do Iguaçu do mapa, incêndios florestais sem precedentes na Europa e nos EUA, secas prolongadas, picos recordes de temperatura... São todos fatos que demonstram a realidade das mudanças climáticas!
Imagens feitas a partir do espaço podem, sim, ser utilizadas como uma ferramenta para a conscientização, mas elas precisam ser utilizadas da forma correta. Pois, quando utilizadas da maneira correta, elas têm a capacidade de estimular um senso de pertencimento ao nosso planeta e servirem para corroborar a necessidade de um alerta global! Mas, reiteramos: quando utilizadas da maneira correta!
Conscientização e divulgação científica se fazem com informação confiável e respeito à verdade, não com legendas que induzem a erro. Afinal uma grande parte do processo de conscientização se faz com confiança e fidedignidade, que podem ir por terra com divulgação baseada em meias verdades. Então, fica aqui o nosso apelo: tenham cuidado com qualquer conteúdo alarmista que não apresenta explicações técnicas ou fontes seguras. Sobre qualquer tema! E em relação à crise climática, reiteramos a necessidade urgente de conscientizar a população sobre o tema, mas alertamos: não se constrói consciência sobre uma base de afirmações falsas.
[1] “Hello, World”: https://www.nasa.gov/image-detail/fd02_for-pao/ acessado em 10/04/2026 às 10h54min.
[2] Confira aqui a fotografia apelidada de Blue Marble, feita pela tripulação da Apollo 17 em 1972: https://www.nasa.gov/image-article/apollo-17-blue-marble/ acessado em 10/04/2026 às 10h49min.
[3] Confira a imagem à qual nos referimos no texto. Enquanto as configurações da câmera ao registrar a imagem que tem sido divulgada foram as informadas no texto, as configurações desta outra imagem, feita logo depois, foram as seguintes: IaSO 51200, Compensação de Exposição -1, Velocidade do obturador 1/15, Abertura f/5.6. Compare as duas imagens e perceba como as configurações diferentes nos dão imagens diferentes. Link de acesso: https://images-assets.nasa.gov/image/art002e000193/art002e000193~orig.jpg acessado em 10/04/2026 às 15h28min.