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Manejo de solo passa a fazer parte do Zoneamento de Risco Climático da soja

Os produtores de soja que aderirem ao projeto terão acesso a percentuais diferenciados de subvenção nas apólices do seguro rural, de acordo com o nível de manejo adotado na propriedade

Por: Redação Fonte: Embrapa
13/01/2026 às 10h26
Manejo de solo passa a fazer parte do Zoneamento de Risco Climático da soja
Foto: Antonio Neto
  • O projeto-piloto estará disponível para produtores do Paraná a partir de agosto e utilizará um conjunto de indicadores para avaliar o nível de manejo das culturas.
  • Com o ZarcNM, os percentuais de subvenção das apólices de segurança rural serão maiores conforme a classe de manejo, podendo chegar a 35%. O padrão atual para a soja é de 20%.
  • A metodologia da Embrapa avalia qualidade e histórico de manejo do solo, com foco em práticas conservacionistas que aumentam a disponibilidade de água diminuindo os riscos às culturas.
  • A classificação do nível de manejo será gerada em uma plataforma digital, com dados fornecidos por operadores credenciados, como cooperativas, laboratórios e informações de serviço.
  • A busca iniciativa de crescimento dos produtores a adotar boas práticas e tecnologias mais sustentáveis.

 

Com um projeto piloto no Paraná, o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) para cultura da soja irá considerar, a partir da próxima safra, também a adoção de boas práticas de manejo do solo que aumentam o volume de água disponível para as plantas. A partir de agosto, os produtores que aderirem ao projeto terão acesso a percentuais diferenciados de subvenção nas apólices do seguro rural, de acordo com o nível de manejo na propriedade. A inovação da proposta do Ministério da Agricultura e Pecuária ( Mapa ) e da Embrapa no Zarc Níveis de Manejo (ZarcNM) pretende contribuir para a mitigação dos riscos climáticos enfrentados pela soja.

Instrução Normativa Nº 2 de 2025 , que regulamenta o ZarcNM, foi publicada no Diário Oficial em 9 de julho, após a Resolução nº 107 do Comitê Gestor Interministerial do Seguro Rural que aprovou as regras do projeto-piloto. Com isso, o manejo adotado entra no cálculo para avaliação do risco climático da cultura. Nesta fase inicial do projeto, o Mapa destinou R$ 8 milhões.

Segundo o diretor do Departamento de Gestão de Riscos do Ministério, Diego Melo de Almeida, o projeto concretiza a evolução do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc). "Esse é um caminho que buscamos com a Embrapa há, no mínimo, dois anos. A safra de verão será o pontapé inicial, mas esperamos seguir no aprimoramento da metodologia e ampliar o alcance e a alocação de recursos para as próximas safras", revela.

O pesquisador José Renato Bouças Farias , da Embrapa Soja (PR), diz que essa atualização é crucial em períodos de escassez hídrica, que atualmente representam a principal causa de perdas na produção de grãos de soja no Brasil. “O ZarcNM evidencia a redução de risco por meio de uma estratégia de manejo bem conduzida, uma informação fundamental para o produtor, para as atividades de planejamento agrícola e para o seguro rural”, explica Farias.

De acordo com o cientista, a adoção de práticas conservacionistas é determinante para aumentar a infiltração de água e reduzir o escorrimento superficial, comum durante chuvas intensas e em grandes volumes. Juntamente com outras práticas de manejo do solo, elas promovem maior disponibilidade de água às plantas.

 

Apresentação no Congresso Brasileiro de Soja 2025

O tema Zarc Níveis de Manejo estará em debate neste dia 22 de julho, às 14h, em um painel do  X Congresso Brasileiro de Soja e do Mercosoja 2025 . Para discutir a pauta, está prevista uma palestra sobre os impactos das mudanças climáticas sobre a produção agrícola, que será ministrada pelo pesquisador da  Embrapa Trigo  (RS),  Gilberto Rocca da Cunha .

Em relação aos princípios metodológicos e aplicações do ZarcNM, o painel contará com a palestra do pesquisador da  Embrapa Agricultura Digital  José Eduardo Monteiro . Além disso, como políticas de gestão de risco, no âmbito do ZarcNM, serão apresentadas pelo representante do  Ministério da Agricultura , Diego Melo de Almeida, do Departamento de Gesetão de Riscos (Deger). O painel será moderado pelo pesquisador da Embrapa  José Renato Bouças Farias .

Durante o Congresso, também será apresentada a publicação  Indicadores para classificação dos níveis de manejo no ZarcNM Soja .

 

Quanto melhor o nível de manejo, maior a subvenção do seguro

O pesquisador explica que o ZarcNM passará a considerar quatro Níveis de Manejo (NMs), definidos a partir de seis indicadores. Os percentuais de subvenção no seguro rural serão maiores conforme a qualidade do manejo: 20% para as áreas específicas como Nível de Manejo 1 (NM1), 25% para NM2, 30% para NM3 e 35% para NM4. Pela regra atual do PSR, o percentual de subvenção padrão para a soja é de 20%.

Com base em avaliações de campo realizadas pela Embrapa em 62 propriedades do Paraná e 201 locais do Mato Grosso do Sul, foi possível validar a metodologia de classificação. Farias explica que o segundo nível do ZarcNM, o NM2, representa a mídia dos manejos de solo até então adotados nesses estados.

Por outro lado, os seguintes níveis (NMs 3 e 4) pressupõem melhorias na fertilidade química, física e biológica do solo, por meio do aprimoramento das práticas de manejo. Dessa forma, esses manejos aumentam a disponibilidade hídrica e, assim, reduzem os riscos de falta de água às culturas.

Já a classificação NM1 revela áreas gerenciadas de forma econômica, apresentando características físicas, químicas e biológicas do solo e, consequentemente, maiores riscos de perdas por déficit hídrico. "O aprimoramento do manejo do solo, por meio de técnicas e práticas comprovadamente eficazes, leva a um aumento significativo na produtividade das culturas, à redução do risco de perdas causadas por condições de seca e ao aumento da fixação de carbono no solo. Além disso, promove a conservação tanto do solo quanto dos recursos hídricos", explica Farias.

Para o pesquisador, a adoção dos níveis de manejo nos trabalhos de Zarc permite delimitar as áreas e identificar os períodos de menor risco climático para a implantação da cultura da soja no Brasil. O risco é contemplado não apenas devido à composição textural do solo, mas também decorrente da interação com o nível de adoção de diferentes práticas de manejo do solo.

Eduardo Monteiro , coordenador da Rede Zarc Embrapa e pesquisador da Embrapa Agricultura Digital (SP), acrescenta que o ZarcNM permite avaliar com maior precisão o risco associado a cada classe de manejo. “Esse refinamento pode ajudar a identificar oportunidades de ampliação de regiões ou de épocas de cultivo para sistemas de produção em níveis de manejo maiores, com menos risco”, completa.

O mecanismo de subvenção diferenciado do programa de seguro rural limitado à classificação de nível de manejo também visa cultivar os produtores a adotar boas práticas e tecnologias mais produtivas e sustentáveis, além de considerar aqueles que já fazem isso. “A classificação ZarcNM deve ajudar o produtor a fazer um diagnóstico rápido do seu sistema de produção e identificar pontos-chave que, se corrigidos, podem contribuir para aumentar sua produtividade”, analisa Monteiro.

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“Quanto melhor o manejo e maior o histórico de boas práticas, melhores as propriedades físicas, químicas e biológicas do solo, maiores o teor de matéria orgânica, a redistribuição hidráulica, o crescimento do sistema radicular e a produtividade”, ressalta Farias.

Na avaliação do pesquisador, a classificação em níveis de manejo é fundamentada em indicadores objetivos e verificáveis, o que possibilita a implementação de mecanismos de fomento ou incentivos que promovam a melhoria do manejo do solo dentro de programas de política agrícola.

Os seis indicadores considerados são: tempo sem revolvimento do solo, porcentagem de cobertura do solo em pré-semeadura (palhada), diversificação de cultura nos três últimos anos agrícolas, percentual de saturação por bases, teor de cálcio e percentual de saturação por alumínio. Além dos indicadores quantitativos, alguns pré-requisitos precisam ser observados como, por exemplo, aparência em contorno ou em nível.

As informações fornecidas sobre a metodologia de classificação podem ser consultadas na Instrução Normativa do Ministério da Agricultura e Pecuária.

 

Como vai funcionar

O objetivo do projeto-piloto para a safra 2025/2026 no Paraná é testar o fluxo operacional de uso do ZarcNM no PSR, vinculado a subvenções diferenciadas. A partir dos critérios e indicadores definidos na metodologia, a classificação do nível de manejo da propriedade ou talhão será calculada de forma automatizada por meio de uma plataforma digital desenvolvida pela Embrapa Agricultura Digital, o Sistema de Informações de Níveis de Manejo (SINM).

Ele vai funcionar com três conjuntos de informações. O primeiro se refere aos dados de identificação da propriedade e histórico da área, como informações sobre operações mecanizadas, disciplinas no solo e cultivos pré-semeadura, importantes para a classificação. O segundo conjunto são informações obtidas por meio de sensoriamento remoto e geoprocessamento, utilizadas para verificação da área. Por fim, o terceiro engloba os resultados das análises de solo de rotina, mas com geolocalização das amostras.

Assim que as informações da área de produção são registradas, o SINM gera a classificação do nível de manejo. Com isso, a segurança irá submeter uma proposta ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), que fará a atribuição do percentual de subvenção correspondente ao nível de progresso.

A inserção das informações no sistema será realizada por meio de operadores credenciados anteriormente, como cooperativas, seguradoras, laboratórios de análise de solo, empresas de geoprocessamento, órgãos públicos de assistência técnica, entre outros atores interessados. Equipes da Embrapa e do Mapa vêm realizando reuniões técnicas com representantes das cooperativas e conversam de serviço para apresentar o projeto-piloto do ZarcNM e tirar dúvidas sobre o fluxo de operação.

Monteiro avalia que as cooperativas têm um papel fundamental nessa fase de implementação do projeto-piloto do ZarcNM no PSR. “Algumas cooperativas já mantêm programas de tecnologia de produção e monitoramento da qualidade do manejo nas lavouras, elas têm contato com agricultores que adotam boas práticas, então podem atuar como facilitadoras”, explica.

Uma das cooperativas que participará da fase de implementação do projeto-piloto é a Cocamar. “Sempre buscamos estar na linha de frente da inovação no agronegócio, principalmente quando essas inovações beneficiam nossos cooperados. Por isso, participar do projeto-piloto do ZarcNM, em parceria com a Embrapa, será uma experiência extremamente relevante. Selecionamos 20 cooperados que referência em boas práticas agrícolas para implementar a proposta e testar na prática a nova metodologia baseada em níveis de manejo”, conta o gerente-executivo técnico da Cocamar, Renato Watanabe.

De acordo com Watanabe, um dos principais desafios foi enquadrar os produtores dentro desses níveis de forma criteriosa, já que cada realidade no campo é única. Ainda assim, a expectativa é que os resultados sejam muito positivos. "O ZarcNM traz uma nova perspectiva para a análise de risco climático e abre caminho para políticas públicas mais justas e eficientes, principalmente no acesso ao crédito e ao seguro rural. Acreditamos que essa nova abordagem vai estimular a adoção de práticas mais sustentáveis, além de fortalecer a resiliência das atividades frente aos desafios climáticos".

O SINM funciona através de APIs (Interface de Programação de Aplicações), um conjunto de protocolos que permite a comunicação de um sistema para outro, de forma automática e sem manipulação direta dos dados. “Estamos construindo um caminho alternativo para viabilizar a subvenção diferenciada para quem comprova boas práticas, em que a rastreabilidade, a transparência e a verificabilidade das informações são essenciais para todas as partes”, ressalta Monteiro.

Aqueles que quiserem se credenciar para provar serviços ao setor produtivo como operadores do sistema precisam comprovar capacidade técnica e, no caso dos laboratórios, também devem ter a aprovação em alguns dos programas de proficiência em análises de solo. “Neste momento, procuramos facilitar as articulações entre cooperativas, garantias, empresas de sensoriamento remoto e laboratórios para atuarem em conjunto e oferecerem soluções integradas, de forma a facilitar a entrega e registro dos dados necessários para a classificação do manejo”, relata Monteiro.

Candidatos a operadores do SINM podem consultar a documentação e solicitar o credenciamento técnico por meio de um  formulário disponível neste link .

 

A evolução do Zarc

Quando criado, em 1996, o Zarc considerava três classes de água disponíveis no solo, sendo determinadas apenas pela textura do solo, principalmente pelo teor de argila. A partir de 2022, um novo método de classificação passou a considerar seis classes de água disponíveis do solo, em função dos teores de areia, silte e argila. A metodologia agora proposta passa a considerar também a estrutura e a fertilidade física, química e biológica, pela influência exercida na disponibilidade hídrica não só.

 

Fotos: Antonio Neto

 
 

Graziella Galinari (MTb 3.863/PR)
Embrapa Agricultura Digital

Consultas da imprensa

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