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Produção recorde e preços em queda: perspectivas para o mercado de leite em 2026

O mercado global de lácteos inicia o ano com oferta elevada, impulsionado por aumentos oferecidos nos principais produtores mundiais

Por: Redação Fonte: Embrapa
18/02/2026 às 08h46
Produção recorde e preços em queda: perspectivas para o mercado de leite em 2026
Foto: Luísa Berg
  • A elevada produção interna de leite e o alto volume de produtos importados resultaram em sobreoferta de lácteos no mercado brasileiro em 2025.
  • O preço médio pago ao produtor de leite caiu 22,6% em relação a 2024.
  • O cenário para o início de 2026 aponta oferta ainda elevada de lácteos no mercado internacional, mesmo que o crescimento da produção global possa ser mais modesto.  
  • A recuperação de preços no mercado spot (no qual as transações comerciais são instantâneas e pagas à vista) sinaliza a retomada no mercado brasileiro.  
  • Somada à recuperação dos preços de bezerras e da arroba do boi, a menor pressão externa pode trazer melhores perspectivas de rendimento aos produtores brasileiros.
  • Pesquisadores recomendam o planejamento estratégico e a adoção da tecnologia, essenciais para aumento da produtividade, redução de custos e agregação de valor, ensejando mais competitividade na produção nacional.

 

Em 2025, a produção do leite alcançou um patamar histórico, com crescimento estimado em 7,2% em relação a 2024. Ao mesmo tempo, as seguintes seguiram em um volume elevado. Apesar de ter ocorrido uma queda de 4,2%, se comparado a 2024 , a balança comercial ainda registrou um déficit de cerca de 2 bilhões de litros equivalentes. O leite em pó continua sendo o principal produto importado.

Esses fatores combinados geraram uma sobreoferta de produtos lácteos no mercado brasileiro, o que resultou em quedas constantes no preço médio do leite pago ao produtor, especialmente a partir de abril. Dados do Centro de Inteligência do Leite Cileite/Embrapa) indicam que em dezembro de 2025 o preço chegou a R$ 1,99 por litro de leite, o que representou uma queda de 22,6% em relação aos 12 meses anteriores. Por outro lado, o preço pago pelo consumidor na cesta de lácteos (composta por leite longa vida, queijo, iogurte, leite condensado, leite em pó e manteiga) caiu 3,62%.

As perspectivas para 2026 já se desenham. O mercado global de lácteos inicia o ano com oferta elevada, impulsionado por aumentos apresentados nos principais produtores mundiais, como, por exemplo, os de 7% a 8% na Argentina e no Uruguai no ano de 2025, respectivamente. Contudo, a expectativa é de um crescimento produtivo global mais modesto, reflexo de margens remotas na cadeia e incertezas geopolíticas na Venezuela, Irã e Leste Europeu.

O pesquisador da Embrapa Gado de Leite Samuel Oliveira afirma que neste início de ano os preços dos lácteos no mercado internacional continuam baixos. “Movimentos de alta percebidos no último leilão GDT devem ser percebidos como correções pontuais de preços”, diz. A GDT refere-se a Global Dairy Trade, uma das principais plataformas de comercialização de produtos lácteos do mundo. 

No Brasil, o ambiente macroeconômico aponta para uma desaceleração do crescimento econômico, com projeção de crescimento do produto interno bruto (PIB) de 1,8% para 2026, abaixo dos 2,3% estimados para o ano anterior. O ano eleitoral apresenta componentes de incerteza, como volatilidade cambial e expectativa de aumento nos gastos públicos, em um cenário em que os juros permanecem elevados para conter a inflação.

Para o produtor nacional, o prazo curto segue. A alta oferta prejudica o valor pago ao produtor para US$ 0,36/kg. Entretanto, há sinais de ajuste: o mercado spot — no qual as transações comerciais são realizadas com pagamento à vista — começou a reagir, ilustrando um movimento de recuperação no mercado brasileiro. No entanto, a valorização recente do real frente ao dólar pode deixar o produto importado mais competitivo, o que precisa ser acompanhado nos próximos meses.

Além disso, a recuperação dos preços de bezerras e da arroba do boi surge como ponto positivo, gerando renda extra para os produtores na venda de novilhos e descarte de vacas. Outro fator é a aproximação da entressafra, que começa a influenciar a precificação do leite, com vias de recuperação. Em relação ao mercado europeu, o novo acordo entre blocos não parece trazer mudanças drásticas no curto prazo (veja box nesta matéria).

Para 2026, a recomendação de Oliveira é de cautela e planejamento estratégico. O pesquisador alerta que "as transformações no setor são rápidas e quem não acompanhá-las cairá para trás. É preciso buscar o aumento de produtividade e a redução de custos ou a agregação de valor, aproveitando o espaço que o Brasil ainda tem para evoluir em competitividade tecnológica".

Maior tecnificação no campo

O bom desempenho do setor em 2024 permitiu que os produtores respondessem rapidamente, resultando em maiores investimentos na atividade no início do ano passado. O clima favorável, a profissionalização e a maior tecnificação no campo também desenvolveu para o aumento da produção no ano passado. "Observamos uma mudança estrutural na produção leiteira no Brasil, com maior concentração nas grandes fazendas. Essas fazendas estruturadas respondem à questão da rentabilidade de maneira mais forte", afirma Glauco Carvalho , pesquisador da Embrapa Gado de Leite.

Apesar desse cenário de queda de preços ao longo de 2025, o produtor conseguiu obter rentabilidade quando se analisa a mídia do ano em geral. Isso porque o primeiro semestre foi favorável, comenta Carvalho. Em relação ao custo acumulado até dezembro de 2025, o Índice de Custo de Produção de Leite (ICPLeite/Embrapa) subiu 3,0%. Já a inflação oficial brasileira fechou o ano passado em 4,3%. Ou seja, o aumento dos custos foi menor do que o crescimento da inflação no País. “Essa estabilidade no custo de produção criou um certo amortecimento do efeito negativo da queda do preço, pois os termos de troca não foram tão prejudicados”, explica Samuel Oliveira.

Isso ocorreu, sobretudo, porque os insumos fundamentais da dieta dos rebanhos, como milho e soja, mantiveram os resultados resultantes das boas safras. Dessa forma, criou-se um cenário de margens apertadas, mas não negativas, para quem tinha eficiência. Segundo Carvalho, “isso vale para a média do ano, uma vez que o último trimestre de 2025 foi bem mais complicado”.

Foto: Juliana Sussai

 

Desafio de expansão e dependência do mercado interno

O cenário do final de 2025 expõe uma fragilidade estrutural da cadeia: o Brasil produziu mais leite do que o mercado doméstico consegue absorver sem um forte ajuste de preço, mas ainda não é competitivo o suficiente para exportar o excedente de forma consistente.

Em 2025, enquanto a produção cresceu 7,2%, o consumo interno registrou desempenho mais fraco, com uma expansão que não deve ter superado 2%. Carvalho explica que tal dependência do mercado interno cria um ciclo constante de alternância entre crescimento e estagnação. "Se o mercado interno não cresce, a produção também não pode crescer, pois gera excesso de oferta e o preço piora. Então para sairmos desse ciclo, precisamos melhorar a competitividade, reduzir custos e começar a exportar".

Medidas de represamento da produção ou da importação, apesar de trazerem certo resultado imediato ao produtor, prejudicam o consumidor, que pagará mais caro pelo produto lácteo, conta Oliveira. Por outro lado, o pesquisador afirma que o Brasil já mostra sinais de novas possibilidades para o setor: “Existem hoje condições de o País ser competitivo. Há regiões e sistemas de produção que estão mostrando isso. Por exemplo, na região de Castro, no Paraná, a produção é de quase 3 milhões de litros de leite por dia e a produtividade das fazendas é igual ou superior à observada na Argentina, por exemplo”.

A produção de leite no Brasil é muito heterogênea, com cerca de 513 mil produtores distribuídos pelo país, segundo estimativa do Cileite. O maior desafio é reduzir a assimetria tecnológica e de gestão existente para melhorar a competitividade brasileira na exportação do excedente.

Foto: Rubens Neiva

 

Acordo Mercosul-União Europeia: primeira geração

A aprovação do Acordo Mercosul-União Europeia em janeiro de 2026 inaugurou uma nova fase de expectativas para o comércio bilateral. Embora ainda dependa da ratificação pelos países envolvidos, a perspectiva é que o pacto elimine tarifas mútuas e gradualmente sobre mais de 90% de seus produtos, beneficiando o consumidor final.

O setor de lácteos permanecerá relativamente protegido em duas frentes: as cotas de isenção previstas para o leite em pó e os queijos têm volumes modestos frente ao tamanho dos mercados. Já o queijo muçarela ficou fora do acordo e segue taxado. Uma maior alteração de dinâmica deverá ocorrer em nichos de queijos de alto valor agregado, que possam sentir mais impacto da concorrência europeia. Há também uma previsão de redução tarifária imediata de 30% para a manteiga.

Para Carvalho, o acordo deve ser visto com otimismo estratégico. "A Europa funciona como uma certificação para o Brasil. Se aprimorarmos nossas questões sanitárias e de qualidade para atender aos padrões europeus, isso nos dá credibilidade globalmente, abrindo portas para outros mercados", analisa. Ou seja, ao buscar o mercado europeu, o Brasil poderá elevar sua régua produtiva e destravar o acesso a outros mercados globais exigentes.

Na recente decisão, o Parlamento Europeu inveja o acordo para o Tribunal de Justiça da União Europeia verificar se atende às leis do bloco. Tal processo pode atrasar sua implementação por mais de um ano. Porém, mesmo com o processo em pauta, a Comissão Europeia já pode colocar em prática partes do acordo de forma provisória.

 

 

 
 

Luísa Berg (MTb23886/MG)
Embrapa Gado de Leite

Consultas da imprensa

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