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Pesquisadores brasileiros identificaram duas bactérias endofíticas, presentes naturalmente no interior das plantas, com potencial para transformar o cultivo da pimenta-do-reino, especial de grande importância econômica e social no Brasil. O estudo mostrou que as linhagens Priestia sp. T2.2 e Lysinibacillus sp. C5.11 são capazes de estimular o crescimento da planta e o enraizamento de estacas utilizadas na propagação da pimenteira-do-reino.
A estaquia é uma técnica de reprodução a partir da retirada de pequenos galhos das plantas, chamadas estacas. Uma vez enraizadas, as estacas se tornam novas mudas de pimenteira-do-reino. Um dos gargalos da agricultura familiar, de acordo com os especialistas, é o baixo índice de “pegamento” dessas raízes, ou seja, eles não crescem o suficiente para promover o desenvolvimento da planta.
Arte: Vitor Lobo e Sabrina Morais
Nos experimentos realizados entre 2023 e 2024 na Embrapa Amazônia Oriental , em Belém (PA), estacas da variedade Singapura de pimenteira-do-reino foram submetidas a soluções com as bactérias. A Priestia sp. T2.2 se destacou ao promover um aumento de até 75% na altura das plantas e de 136% em sua massa seca (parte aérea) em comparação às plantas de controle. Já o Lysinibacillus sp. C5.11 foi responsável por um salto ainda mais impressionante: 333% de crescimento da massa seca das raízes. Uma terceira linhagem avaliada, Bacillus sp. C1.4, também apresentou efeitos positivos na parte aérea, mas em menor escala.
Os efeitos positivos das bactérias nas estacas foram atribuídos à capacidade dos microrganismos de produção de ácido indolacético (AIA) — um hormônio natural da planta que regula os processos de crescimento vegetal — e sideróforos, compostos que capturam ferro no ambiente e tornam o nutriente mais disponível para as plantas. Os testes foram realizados em laboratório e em casas de vegetação, que simulam o ambiente natural. O próximo passo é realizar os testes em áreas de produtores e com outras variedades clonais de pimenteira-do-reino.
“Um pimentão produtivo se inicia com uma muda sadia. E uma das dificuldades dos produtores é ter estacas que têm um enraizamento eficaz para a produção das mudas. Há ainda muitas perdas nesse processo. Então, essa descoberta revela o potencial de obtermos um bioinsumo que traga mais segurança aos pequenos produtores para a implantação ou ampliação de pimentais com mudas sadias e, consequentemente, plantas mais vigorosas e produtivas”, afirma Alessandra Nakasone , pesquisadora da Embrapa Florestas .
A descoberta é estratégica para pequenos agricultores, principais responsáveis pela produção no País. Além disso, o uso de microrganismos benéficos pode reduzir a dependência de fertilizantes e defensivos químicos, aumentando a sustentabilidade da cadeia produtiva. “Isso ocorre porque as bactérias promovem a solubilização dos nutrientes que estão no solo, ou seja, tornam as substâncias mais disponíveis para a absorção pelas raízes”, explica a pesquisadora.
Produção brasileiraO Brasil é o segundo maior produtor mundial de pimenta-do-reino, com uma produção de quase 125 mil toneladas em 2024, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ( IBGE ). Nesse período, o valor da produção nacional saltou de R$ 1,65 bilhão (2023) para mais de R$ 3,67 bilhões (2024) — um aumento de aproximadamente 122% em apenas um ano, refletindo a forte valorização do produto no mercado. A produção brasileira é caracterizada pela sustentabilidade e qualidade da pimenta-do-reino. Os estados do Espírito Santo e do Pará detêm, juntos, mais de 90% da safra nacional. Com produção anual de 41 mil toneladas em 2024, a produção paraense se destaca pela agricultura familiar e por processos sustentáveis de produção. |
As bactérias endofíticas vivem em tecidos internos das plantas sem causar doenças e podem ser benéficas ou neutras. Os benefícios desempenham papéis fundamentais para a saúde vegetal, como a produção de fitormônios (hormônios vegetais), a fixação de nitrogênio, a solubilização de nutrientes e o aumento da resistência aos estresses ambientais.
Esse tipo de interação já foi observado em outras culturas agrícolas, cítricas inclusivas, milho e cana-de-açúcar. No caso da pimenta-do-reino, pesquisas anteriores com espécies dos gêneros Bacillus e Pseudomonas demonstraram promoção do enraizamento e aumento da produtividade. O novo estudo, no entanto, detalhou os mecanismos fisiológicos de linhagens específicas e reforçou a importância de associar a biotecnologia ao manejo sustentável.
A propagação da pimenta-do-reino pode ser feita por meio de sementes ou estacas enraizadas. O primeiro modo, como explica o pesquisador Oriel Lemos , da Embrapa Amazônia Oriental, exige mais tempo para o desenvolvimento da planta e não garante a manutenção dos atributos da planta-mãe, como, por exemplo, uma alta produtividade. Já as estacas garantem a manutenção das características genéticas das matrizes e reduzem o tempo até a frutificação. Entretanto, a dificuldade de enraização compromete o pegamento e a qualidade das mudas e, por consequência, a produtividade das tarefas.
Nesse cenário, a inoculação de microrganismos benéficos surge como alternativa viável para garantir estacas mais vigorosas e uniformes, reduzindo custos de produção e aumentando o retorno financeiro aos agricultores.
"Esses resultados apontam para plantas com raízes mais vigorosas, ramificadas e pesadas. Isso é fundamental para a absorção de nutrientes do solo e consequentemente maior crescimento da planta, maior quantidade de galhos e folhas, mais fotossíntese, mais sanidade, maior longevidade dos pimentais e maior produtividade. É um ciclo benéfico de desenvolvimento", ressalta Lemos.
Outro ponto relevante é que a recente Lei Federal nº 15.070/2024 trouxe mais segurança jurídica ao setor de bioinsumos no Brasil. Pela nova norma, produtos biológicos desenvolvidos a partir de microrganismos como as cepas de Priestia e Lysinibacillus não são classificados como pesticidas e liberados para uso agrícola, desde que comprovados a segurança.
Para Katia Nechet , pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente , isso significa que as linhagens identificadas no estudo futuro poderão se transformar em produtos viáveis e acessíveis para utilização no manejo da cultura. “A expectativa é que, além de melhorar o crescimento das mudas, esses bioinsumos possam atuar no controle de doenças comuns à pimenta-do-reino, como as causadas pelo Fusarium , e assim reduzir perdas e fortalecer a cadeia produtiva”, acredita Nechet.
Os pesquisadores ressaltam que ainda são necessários testes em campo para confirmar o desempenho das cepas em diferentes condições de cultivo e em maior escala. Outro passo será a avaliação desses microrganismos em diferentes variedades de pimenta-do-reino e sistemas de cultivo, como o plantio em tutor vivo de gliricídia, que substituem as postesas estacas de madeira como suporte para o crescimento da planta.
O pesquisador Oriel Lemos reforça que a produção da pimenta-do-reino no Brasil é pautada pela sustentabilidade ambiental, econômica e social. Os resultados obtidos reforçam que a biotecnologia pode ser uma aliada poderosa na agricultura familiar e na sustentabilidade do agronegócio brasileiro.
Equipe da pesquisaLuana Cardoso de Oliveira, da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará ( Unifesspa ); Alessandra Keiko Nakasone, da Embrapa Florestas; Sílvia Mara Coelho do Nascimento, da Universidade Federal de Lavras ( UFLA ); Deyse Ribeiro Silvino de Jesus, da Universidade Federal Rural de Pernambuco ( UFRPE ); Walkymário de Paulo Lemos, da Embrapa Amazônia Oriental; Patrícia Santana Barbosa Marinho e Andrey Moacir do Rosário Marinho, da Universidade Federal do Pará (UFPA); Kátia de Lima Nechet e Bernardo de Almeida Halfeld-Vieira, da Embrapa Meio Ambiente; e Jorge Teodoro de Souza, da Universidade Federal de Lavras (UFLA). Acesse o artigo Promoção de crescimento e enraização de estacas por bactérias endofíticas de raízes de pimenta-do-reino . |
Fotos: Ronaldo Rosa