
|
A raça bovina Canchim é a segunda a receber um selo Beef on Dairy (carne no leite) no Brasil, após o Angus. A certificação, denominada Canchim on Dairy, identifica touros da raça aptos ao cruzamentos com vacas leiteiras mestiças da raça Girolando, garantindo qualidade aos bezerros. Além de fornecer carne de alta qualidade para os segmentos de cortes nobres, a iniciativa ajuda a diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização de animais.
Leia mais em : Selo inédito vai contribuir para o mercado de carnes premium no Brasil
A estratégia é usar touros de corte para obter animais de valor comercial mais alto para a produção de carne. De acordo com a pesquisadora Cintia Righetti Marcondes ( foto à direita ), da Embrapa Pecuária Sudeste (SP), o selo representa uma oportunidade para produtores de leite ampliarem a renda, agregando valor aos bezerros (machos e fêmeas) excedentes que, em sistemas puramente leiteiros, costumam ter baixo valor de mercado.
“O objetivo é atender ao produtor que deseja uma segunda fonte de faturamento, vendendo esses animais para corte. Canchim é uma raça terminal que, ao ser cruzado com vacas mestiças, traz melhor qualidade de carcaça, mais peso ao desmame e ao sobreano (novilho com mais de um ano). Além disso, é uma alternativa que agrega bem-estar animal, evitando o descarte de machos recém-nascidos, que passam a ser recriados e destinados ao abate por possuírem uma carne superior”, explica Cintia Marcondes.
Segundo o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso , o selo Beef on Dairy para a raça Canchim representa um avanço importante para a identificação dos reprodutores mais adequados ao cruzamentos com vacas leiteiras. O selo identifica esses reprodutores, que podem ser direcionados a centros de inseminação e ganhar destaque em leilões voltados para esse mercado.
Assim como Cardoso, a presidente da Associação Brasileira de Criadores de Canchim ( ABCCAN ), Cristina Ribeiro, ressalta que o selo é um marco na consolidação da raça dentro dos sistemas produtivos modernos. "Embora os cruzamentos entre os Canchim e raças leiteiras já seja uma prática tradicional entre nós pecuaristas, a criação de um selo oficial traz reconhecimento, padronização e segurança ao mercado. Essa iniciativa fortalece a integração entre pecuária de leite e de corte, ao mesmo tempo em que apoia o produtor leiteiro com alternativas mais eficientes para o aproveitamento de seus animais e contribui diretamente para a expansão da oferta de carne de qualidade, agregando valor a toda a cadeia produtiva", destaca o presidente da ABCCAN.
A pesquisadora da Embrapa conta que em regiões quentes e desafiadoras, como o Centro e o Norte do País, o Canchim é uma excelente opção pela sua pelagem clara e adaptação ao calor. O uso de sua genética gerará animais com carcaças de maior rendimento e gordura adequada, adaptados aos trópicos. Ele transmite aos seus descendentes precocidade e padronização, com bezerros que podem superar o Nelore em 10% a 15% sem peso à desmama.
A estratégia possibilita ganhos diretos na qualidade do produto final. “O padrão genético permite aumentar o rendimento de carcaça e a conformação, assim como obter animais de bom acabamento que atendem às características de um mercado consumidor cada vez mais exigente”, complementa Cardoso.
Como obter o selo?Para um tour receber o selo Canchim on Dairy, deve atender a critérios técnicos baseados em avaliações genéticas para garantir o desempenho e a segurança dos cruzamentos. “Utilizamos como base as avaliações genéticas do Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne ( Promebo ). Estabelecemos critérios restritivos para a análise, cujo resultado indica se o touro pode ou não receber o selo. Os requisitos, além do peso ao nascimento (que deve estar entre os 40% melhores), incluem a classificação de ganho de peso do nascimento ao desmame e pós-desmame, onde selecionamos os 50% melhores animais. Na conformação, escolhemos os 30% melhores; no tamanho (frame), buscamos o intervalo entre 30% e 50% para evitar animais pequenos ou grandes e na área de olho de lombo, os 40% superiores”, revela Cintia Marcondes.
De forma resumida, o tour deve possuir Diferenças Esperadas na Progênie (DEPs), com bom grau de acurácia, divididas em 10 grupos (Decas, veja a explicação no quadro abaixo) para características produtivas, como:
• Peso ao Nascer (PN): animais com Decas* menores ou iguais a quatro (até 40% melhores da raça), movimentando bezerros com menor peso ao nascimento para evitar dificuldades no parto.
• Ganho de Peso: Decas menores ou iguais a cinco para garantir potencial de crescimento do nascimento ao sobreano.
• Conformação ao sobreano: Décadas menores ou iguais a três, mudança de musculosidade superior.
• Tamanho ao Sobreano: Decas entre três e cinco para identificar machos de tamanho médio, evitando esconderijos grandes ou pequenos.
• Área de Olho de Lombo: Decas menores ou iguais a quatro para garantir rendimento de carcaça e qualidade de cortes nobres.
Simulações realizadas na base de dados do Promebo identificaram que, com esses critérios, diversos machos da raça já estão aptos à obtenção da certificação.

Benefícioss
O tour que cumprir os critérios definidos terá o selo no certificado de avaliação genética, que funciona como um guia para o produtor de leite e para os centros de coleta e processamento de sexo, com a identificação e movimentação de animais com características desejadas.
Essa chance vai trazer vários benefícios, como reduzir o risco de partos difíceis, um fator crítico para a saúde da vaca leiteira; aumentar o valor de venda dos bezerros, criando um produto diferenciado; e melhorar a sustentabilidade do sistema, com a produção de carne com menor impacto ambiental por quilo produzido.
O selo Canchim on Dairy representa um avanço tecnológico para a pecuária brasileira, unindo pesquisa científica e aplicação prática no campo. Essa raça possui excelente mercado, não apenas para venda de sêmen, mas também para uso no campo, devido ao seu bom desempenho. Um pesquisador ressaltou que pequenos produtores de leite, por exemplo, podem adquirir um touro em consórcio para trabalhar no rebanho por alguns anos.
“Em nossa região tropical, o uso da raça Angus não é viável a campo, apenas via sêmen. Assim, o Canchim é uma alternativa especializada para substituir touros de raças zebuínas, como Tabapuã ou Guzerá, no cruzamentos com vacas mestiças para gerar bezerros melhores. Um ponto interessante é que tanto fêmeas quanto machos cruzados têm valor de mercado. A fêmea jovem é muito valorizada, pois deposita gordura na precocemente, o que permite um abate com excelente. qualidade", acrescenta a pesquisadora.
A iniciativa do Canchim on Dairy foi liderada pela Embrapa e pelos parceiros da Associação Brasileira de Criadores de Canchim (ABCCAN), Associação Nacional de Criadores “Herdbook Collares” (ANC ) e o Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo).
Entenda a classificação bovinaDeca (ou decil) - é uma classificação utilizada no melhoramento genético bovino que divide os animais em dez grupos iguais com base em sua avaliação genética, variando de Deca 1 (mais superior) a Deca 10 (mais inferior). Essa métrica é baseada na DEP (Diferença Esperada na Progênie) e facilita a identificação rápida do valor genético do animal, dividindo os rebanhos em "cabeceira" (topo), "meio" e "fundo". Deca 1: Representa os 10% melhores touros da raça ou grupo avaliados para uma determinada característica. Deca 2: Representa os próximos 10% (do 11º ao 20º melhor), e assim por diante. Dez 10: Representa os 10% dos piores animais da avaliação. |
Imagens: Juliana Sussai (bovinos), Gisele Rosso (pesquisadora) e Divulgação (selo)
Gisele Rosso (MTb 3.091/PR)
Embrapa Pecuária Sudeste
Consultas da imprensa
pecuaria-sudeste.imprensa@embrapa.br
Número de telefone: (16) 3411-5625