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A canola de segunda safra pode reduzir as emissões da aviação em até 55%.

O grau de redução depende dos avanços tecnológicos e das mudanças regulatórias no setor.

Por: Redação Fonte: Embrapa
28/04/2026 às 16h05
A canola de segunda safra pode reduzir as emissões da aviação em até 55%.
Foto: Embrapa
  • Pesquisadores avaliaram o ciclo de vida do Combustível de Aviação Sustentável (SAF) produzido no Brasil a partir da segunda safra de canola.
  • O estudo examina o papel da agricultura e sua integração com o hidrogênio renovável como estratégias para reduzir as emissões.
  • Os resultados mostram que o biocombustível reduz as emissões em até 55%, dependendo do cenário de adoção, em comparação com o uso de querosene fóssil.  
  • A fonte do hidrogênio utilizado no processo de conversão industrial é crucial para o desempenho ambiental do combustível.
  • A utilização de hidrogênio verde proveniente de fontes de energia renováveis ​​reduz as emissões entre 86% e 94% durante a fase de conversão industrial.  
  • Uma avaliação realizada pela Universidade de Brasília e pela Embrapa alerta para os impactos do uso de fertilizantes na agricultura.

 

Uma avaliação do ciclo de vida do Combustível de Aviação Sustentável (SAF) produzido a partir de canola de segunda safra no Brasil indica uma redução potencial de até 55% nas emissões de gases de efeito estufa (GEE), dependendo do cenário de adoção, em comparação com o querosene de aviação Jet-A1. O estudo analisa cada etapa do processo, desde o cultivo da matéria-prima até o uso final do combustível na aeronave, uma abordagem conhecida como Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), que fornece informações sobre os impactos ambientais ao longo de toda a cadeia produtiva.

Segundo Priscila Sabaini , analista da Embrapa Ambiente, a avaliação mostrou que, num cenário hipotético otimista, as emissões poderiam ser reduzidas em até 55%. Ela ressalta, porém, que esse percentual representa um potencial máximo, baseado em condições ideais de adoção que ainda não são viáveis ​​na prática. Atualmente, existem entraves técnicos e regulatórios que, por exemplo, limitam a substituição dos combustíveis fósseis tradicionais.

Um dos obstáculos é que, no caso do HEFA SAF, produzido a partir de óleos e gorduras, a mistura com querosene de aviação convencional é limitada a cerca de 50%. Isso significa que, mesmo com ampla adoção, ainda não é possível substituir completamente o combustível de aviação por alternativas sustentáveis.

Segundo Sabaini, as porcentagens apresentadas devem, portanto, ser interpretadas como uma estimativa do potencial de mitigação de emissões, e não como um resultado imediato ou garantido. O progresso dependerá de fatores como avanços tecnológicos, a expansão da produção de SAF (Combustível de Aviação Sustentável) e mudanças nas regulamentações do setor.

A pesquisa é resultado de uma colaboração entre o Laboratório de Energia e Meio Ambiente ( LEA ), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Mecânicas da Universidade de Brasília (UnB), a Embrapa Agroenergia (Distrito Federal, Brasil) e a Embrapa Meio Ambiente (São Paulo, Brasil), e contribui para o debate internacional sobre a descarbonização da aviação.

Cenários

A análise foi conduzida levando em consideração todas as emissões, desde a produção de canola até a combustão de combustível na aeronave. Foram utilizados dados reais de agricultores brasileiros, representando condições de cultivo tropical em um sistema de segunda safra.

O estudo também inclui a modelagem do processo HEFA (Ésteres e Ácidos Graxos Hidroprocessados), uma tecnologia que converte óleos vegetais em combustível de aviação por meio de processos de hidrotratamento. A produção de um megajoule (MJ, equivalente a um milhão de joules, uma unidade de energia) de bioquerosene foi avaliada em três cenários: Jet-A1 fóssil; uma mistura de 50% de SAF/50% de Jet-A1; e 100% de SAF.

A análise está em consonância com diretrizes internacionais como o CORSIA , programa da Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) para reduzir e compensar as emissões de CO₂ de voos internacionais. O estudo também está alinhado com as políticas brasileiras de descarbonização, incluindo a Política Nacional de Biocombustíveis ( RenovaBio ) e a Lei do Combustível do Futuro .

“A indústria da aviação precisa de alternativas tecnicamente viáveis ​​para atingir as metas climáticas globais, e a SAF é atualmente a principal estratégia de curto e médio prazo. O que diferenciou nosso estudo foi a análise da canola cultivada como segunda cultura no Brasil, em rotação com a soja, em condições tropicais ainda pouco representadas na literatura internacional”, afirma Giulia Lamas, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente e doutoranda da Universidade de Brasília.

A agricultura ainda representa uma parcela significativa das emissões.

Os resultados indicam que a fase agrícola é responsável pela maior parte das emissões no ciclo de vida do SAF de canola. A produção agrícola contribui com aproximadamente 34,2 g CO₂ eq./MJ, valor impulsionado principalmente pela produção de fertilizantes e pelas emissões de óxido nitroso (N₂O) do solo. A etapa de conversão industrial utilizando HEFA contribui com aproximadamente 12,8 g de CO₂ eq./MJ quando se utiliza hidrogênio proveniente de fontes fósseis.

“A produção e o uso de fertilizantes, especialmente os nitrogenados, representam o principal ponto crítico do sistema devido às emissões associadas e aos impactos na água e nos ecossistemas”, alerta Alexandre Cardoso , pesquisador da Embrapa Agroenergia. O pesquisador destaca que os bioinsumos são uma excelente opção para reduzir as emissões na produção de canola.

Os impactos associados ao uso de fertilizantes foram classificados em categorias como eutrofização (excesso de nutrientes em ambientes aquáticos que pode causar proliferação de algas e redução dos níveis de oxigênio na água) e toxicidade humana, indicando que o gerenciamento eficiente dos insumos é fundamental para o desempenho ambiental do combustível.

"A análise mostra que a sustentabilidade da SAF depende tanto de avanços industriais quanto da melhoria das práticas agronômicas", acrescenta Edgar Amaral Silveira, professor da UnB, supervisor e coautor do estudo.

O hidrogênio verde é decisivo.

O estudo demonstra que a fonte do hidrogênio utilizado na produção de combustível é um fator decisivo no desempenho ambiental.

Quando o hidrogênio derivado de combustíveis fósseis é substituído por hidrogênio produzido a partir de fontes de energia renováveis, como a solar e a eólica, observa-se uma redução significativa (variando de 86% a 94%) nas emissões durante a fase industrial. Em cenários mais avançados, com a integração do hidrogênio de baixo carbono, as emissões totais de combustíveis podem ser significativamente menores em comparação com o querosene fóssil.

“A integração da bioenergia e do hidrogênio renovável pode reduzir significativamente a intensidade de carbono dos combustíveis de aviação”, destaca Silveira.

 

Uso da terra e particularidades brasileiras

O estudo também indica uma redução no uso de recursos fósseis, medindo um indicador conhecido como esgotamento de combustíveis fósseis, que representa a quantidade de recursos não renováveis ​​utilizados ao longo do processo.

Como esperado para os biocombustíveis agrícolas, existem impactos associados ao uso da terra, que se concentram principalmente durante a fase de cultivo. No Brasil, porém, há uma característica notável: a canola é cultivada principalmente como cultura secundária, em rotação com a soja. Portanto, esse tipo de cultivo aproveita as terras existentes e aumenta a eficiência do uso da terra.

“O Brasil possui uma vantagem comparativa significativa: aqui, a canola não é cultivada como cultura principal que 'compete' por terra, mas sim como opção de segunda cultura durante o inverno e na entressafra, dentro de sistemas integrados de rotação de culturas. Isso melhora o desempenho de sustentabilidade da canola brasileira em comparação com regiões onde ela é cultivada como monocultura”, observa Bruno Laviola , chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Agroenergia e pesquisador responsável pela tropicalização da canola.

O estudo também observa que as emissões associadas à mudança indireta do uso da terra (iLUC, na sigla em inglês) não foram levadas em consideração, o que representa tanto uma limitação quanto uma oportunidade para pesquisas futuras. 

Implicações para a política climática e certificação

Os resultados destacam a importância dos instrumentos regulatórios brasileiros para a expansão sustentável dos biocombustíveis.

Atualmente, a canola ainda não está incluída na rota HEFA do RenovaCalc, ferramenta utilizada pela RenovaBio para certificar a intensidade de carbono e emitir Créditos de Descarbonização ( CBIOs ). A inclusão dessa matéria-prima poderia ampliar as opções de certificação e refletir melhor a diversidade agrícola do país.

Além disso, o estudo fornece dados que podem apoiar melhorias metodológicas no RenovaCalc, particularmente no que diz respeito à intensidade de carbono do hidrogênio, às emissões agrícolas e à integração com energias renováveis.

Sustentabilidade além do carbono

O estudo enfatiza que a análise ambiental deve ir além das emissões de carbono e também levar em consideração os impactos na água, no solo e nos ecossistemas. 

“A redução das emissões de gases de efeito estufa deve caminhar lado a lado com melhorias no uso de fertilizantes e na mitigação dos impactos sobre a água e os ecossistemas”, destaca Sabaini . “O Brasil possui condições favoráveis ​​para integrar a produção agrícola e a energia renovável, o que poderia aprimorar ainda mais os benefícios climáticos da Agricultura de Precisão”, acrescenta Marilia Folegatti, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente.

Estudo completo disponível

O estudo completo de Giulia Lamas, da Universidade de Brasília; Alexandre Cardoso, da Embrapa Agroenergia; Priscila Sabaini, da Embrapa Meio Ambiente; Sandra Luz, Maria dos Reis Borges, Tainara Costa e Thiago Gonzales, da Universidade de Brasília; Marília Folegatti, da Embrapa Meio Ambiente; Bruno Laviola, da Embrapa Agroenergia; Thiago Rodrigues, do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia ( Ibict ); Patrick Rousset, do CIRAD (França), e Edgar Silveira, da Universidade de Brasília, está disponível aqui . 

 

 

 
 

Cristina Tordin (MTb 28.499/SP)
Embrapa Meio Ambiente

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