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Estudo mostra como o Brasil pode reduzir em até 38% a pegada de carbono na produção de trigo

A adoção de práticas sustentáveis ​​e tecnologias já disponíveis pode diminuir em até 38% o impacto ambiental da produção de trigo no País.

Por: Redação Fonte: Embrapa
08/01/2026 às 14h26
Estudo mostra como o Brasil pode reduzir em até 38% a pegada de carbono na produção de trigo
Foto: Raoni Locatelli
  • A pegada de carbono foi estimada em 0,50 kg CO 2 para cada kg de trigo produzido no Brasil, índice abaixo da média mundial (0,59).
  • O uso de fertilizantes nitrogenados é o principal componente de emissão de gases no processo produtivo.
  • O uso de fontes alternativas de adubação nitrogenada associada a cultivares mais produtivas pode reduzir a emissão de carbono em 38% na produção de trigo.
  • O trigo produzido no Brasil foi avaliado mais competitivamente ambientalmente em comparação com outros países.
  • O estudo da Embrapa é pioneiro em estimar a pegada de carbono em trigo na América do Sul.
  • Os resultados do projeto devem orientar modelos de produção mais sustentáveis ​​em diversas cadeias produtivas associadas ao trigo.

 

Um estudo pioneiro realizado pela Embrapa revelou que o trigo produzido no Brasil tem uma pegada de carbono menor que a média mundial e indicou caminhos concretos para reduzir ainda mais as emissões de gases de efeito estufa. Uma análise, feita em trabalhos e indústria moageira do Sudeste do Paraná, apontou que a adoção de práticas sustentáveis ​​e tecnologias já disponíveis pode diminuir em até 38% o impacto ambiental da produção de trigo no País.

Publicada no periódico científico Journal of Cleaner Production , a pesquisa é a primeira na América do Sul a estimar a pegada de carbono do trigo desde o cultivo até a produção de farinha. Também foi o primeiro estudo do tipo nessa cultura em ambiente subtropical. O índice médio brasileiro ficou em 0,50 kg de dióxido de carbono equivalente (CO₂eq) por quilo de trigo produzido — abaixo da média global, estimado em 0,59 kg.

Para chegar a esse resultado, os pesquisadores avaliaram 61 propriedades rurais na safra 2023/2024, além de acompanhar todo o processo industrial em uma moageira paranaense. O levantamento detalhado desde o uso de fertilizantes e defensivos agrícolas até o transporte dos grãos, moagem, moagem e transformação dos grãos em farinha.

 

O que é pegada de carbono?

É o total de emissões de gases de efeito estufa causado por um indivíduo, evento, organização, serviço, local ou produto, expresso em dióxido de carbono equivalente (CO2eq).

 

Fertilizantes nitrogenados são principais emissores de CO2

A pesquisa apontou os fertilizantes como o principal fator de pegada de carbono na triticultura. O maior impacto é a emissão de óxido nitroso (N₂O) gerado durante a aplicação de uréia, fertilizante capaz de emitir 40% dos gases de efeito estufa envolvidos na produção de trigo. A uréia é o principal fertilizante utilizado no trigo devido ao menor custo por unidade de nutriente dentre os adubos nitrogenados disponíveis no mercado. Segundo uma pesquisa, a substituição desse fertilizante pelo nitrato de amônio com calcário (CAN) pode reduzir a emissão de carbono em 4%, minimizando significativamente os impactos ambientais.

A acidificação do solo, uma das categorias de maior impacto ambiental, também pode ser mitigada pela substituição de uréia pelo CAN. "Quando a uréia não é totalmente absorvida pelas plantas ou é lixiviada como nitrato, ocorrem reações que liberam íons de hidrônio, aumentando a acidez do solo. Em contrapartida, os fertilizantes à base de CAN ajudam a neutralizar esse efeito devido ao seu conteúdo de cálcio", explica a pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente (SP) Marília Folegatti . Segundo ela, outras tecnologias também devem ser consideradas para reduzir a dependência de fertilizantes sintéticos e minimizar os impactos ambientais, como biofertilizantes, biopesticidas, fertilizantes de liberação lenta e nanofertilizantes. Ela lembra que a pesquisa avança na produção de uréia verde e nitrato de amônio a partir de fontes de energia renováveis.

A pesquisadora da Embrapa Agroindústria Tropical (CE) Maria Cléa Brito de Figueiredo lembra que o uso de fertilizantes nitrogenados é também o maior emissor de gases de efeito estufa em outras culturas com pegada de carbono e hídrica comprovadas pela Embrapa, como as fruteiras, em especial, manga, melão e coco verde. “Além disso, a produção de fertilizantes sintéticos gera metais pesados ​​que afetam a contaminação do solo, podendo afetar a qualidade dos alimentos, a saúde humana e os ecossistemas”, alerta o cientista.

A pesquisa também aponta que a adoção de cultivares de trigo mais produtivas pode reduzir os impactos ambientais no campo, já que ação promove maior rendimento com menos recursos, como terra e água. O estudo ressalta ainda a importância de considerar outros fatores ambientais, como biodiversidade e saúde do solo. Futuros estudos que integram esses aspectos poderão oferecer uma visão mais abrangente sobre a sustentabilidade da produção de trigo em regiões tropicais e subtropicais.

Foto: João Leonardo Pires

 

Sustentabilidade e perspectivas para a produção de trigo

No contexto mundial, os dados existentes indicam que a pegada de carbono na produção de trigo varia de 0,35 a 0,62 kg de CO₂ por kg de grãos, dependendo das condições climáticas e das práticas agrícolas de cada região tritícola. A média global está estimada em 0,59 kg de CO₂ para cada kg de grãos de trigo produzido.

O Brasil apresenta uma posição favorável nesse contexto. Na média final, a pegada de carbono foi definida em 0,50 kg CO2 para cada kg de trigo produzido no Brasil, número inferior às registradas na China (0,55), na Itália (0,58) e na Índia (0,62). "Ainda podemos evoluir. O estudo indica que, com um conjunto de ajustes, nossos números podem nos aproximar de referências como Austrália e Alemanha, que possuem indicadores próximos a 0,35", avalia Álvaro Dossa , analista da Embrapa Trigo (RS). De acordo com o artigo, nos cenários estudados, utilizando tecnologias já disponíveis, a pegada de carbono do trigo brasileiro pode ser reduzida em 38%.

Gráfico comparativo da pegada de carbono para produção de trigo: 1 kg CO2-eq para cada 1 kg de trigo produzido.

Fonte: Embrapa Trigo 2025, com base na revisão de literatura.

 

Na escala mundial, existem registros de pegada de carbono dividido por continentes, com média estimada para a África (0,24), Ásia (0,68), Europa (0,33), América do Norte (0,42) e Oceania (0,29 mas com produção de trigo incipiente). O estudo apresentado pela Embrapa é o primeiro indicador para estimar a pegada de carbono na América do Sul.

Além da pegada de carbono, foram analisados ​​os impactos do trigo e da farinha de trigo no uso da água, acidificação terrestre, eutrofização (marinha e em água doce) e toxicidade (humana e ecotoxicidade). "A produção de trigo no Brasil apresenta impactos superiores em categorias como acidificação do solo e toxicidade ecotóxica terrestre, devido às emissões de fertilizantes e pesticidas. No entanto, os resultados do estudo sugerem que, com o uso de cultivares mais eficientes e práticas sustentáveis, a produção brasileira pode se consolidar entre as mais sustentáveis ​​do mundo", avalia Marília Folegatti.

Em outras categorias ambientais, a produção brasileira apresenta vantagens em relação a outros países. O cultivo de trigo de sequeiro minimiza significativamente o consumo de água durante o crescimento do grão, rapidamente o impacto sobre os corpos hídricos. Contudo, a síntese de fertilizantes NPK (nitrogênio, fósforo e potássio) ainda exerce influência no consumo de água. “A demanda crescente por alimentos e fertilizantes está levando as indústrias a investirem em soluções de tratamento e reaproveitamento de água, aliviando a pressão sobre os recursos hídricos”, explica Folegatti.

Para a pesquisadora da Embrapa Trigo (RS) Vanderlise Giongo , estudos sobre o impacto ambiental da produção de trigo são cada vez mais necessários no cenário de aquecimento global. “Precisamos identificar, avaliar e propor modelos de produção de trigo direcionados à redução de impactos ambientais, geração de renda e o estabelecimento de diretrizes para o cultivo de trigo de baixo carbono”, defende Vanderlise.

 

Indicadores para a produção de farinha de trigo

Uma parceria com a Moageira Irati ajudou os pesquisadores a fazer um recorte no estudo para avaliar a pegada de carbono na farinha de trigo produzida no Brasil. Foram avaliadas todas as etapas envolvidas no processo de produção da farinha, desde o trabalho (cultivo e manejo), passando pela logística de transporte e chegada na indústria (limpeza, secagem e armazenamento), até o processo de transformação dos grãos em farinha (umidificação e moagem).

A pegada de carbono na produção brasileira de farinha de trigo variou de 0,67 (a partir de grãos originados em grandes propriedades) a 0,80 (origem em pequenas propriedades). Número inferior às médias registradas na Espanha (0,89) e na Itália (0,95), por exemplo.

Um dos fatores competitivos do Brasil em relação aos países de clima temperado é a maior incidência da luz solar, o que permite o aproveitamento da energia fotovoltaica, recurso natural renovável que pode ser utilizado em várias etapas da indústria.

De acordo com o empresário Marcelo Vosnika, diretor da  Moageira Irati , a produção de alimentos com menor impacto ambiental é uma demanda ainda latente no consumidor, mas cada vez mais valorizada pelo mercado. "Estamos trabalhando para mostrar ao mundo como nosso modelo de produção de trigo está associado a uma agricultura resiliente e de baixo carbono. Para provar que nossa farinha vem de uma produção sustentável, precisamos validar cientificamente os resultados deste projeto. Acredito que a iniciativa vai gerar boas oportunidades de negócios para todos os envolvidos na cadeia do trigo brasileiro", afirma o diretor da Moageira Irati, Marcelo Vosnika.

A expectativa dos pesquisadores da Embrapa envolvidos no projeto é que os resultados do ciclo de vida do trigo sejam usados ​​para avaliar outros produtos como o exemplo da farinha, como na cadeia de carnes e de energia. “A primeira etapa, que é a avaliação da pegada de carbono do trigo no campo, já está pronta e pode servir de base para diversas outras cadeias que utilizam o trigo no processo industrial”, avalia Vanderlise Giongo, destacando que o objetivo da pesquisa é promover alternativas para uma agricultura ambientalmente mais sustentável: “Esperamos que os resultados desse projeto possam orientar modelos de produção sustentável, desencadeando uma nova era para o trigo brasileiro”.

 

Foto: Diogo Zanatta

 

Como foi feita a pesquisa

A pesquisa é um dos resultados do projeto “ Indicadores e tecnologias ESG (meio ambiente, social e governança) na moagem de trigo paranaense ”, lançado em 2023, por meio da parceria da  Embrapa Trigo  (RS) com a  Moageira Irati . O estudo acompanhou 61 produtores rurais no Sudeste do Paraná, durante a safra de trigo 2023/2024, quando foram avaliados diversos indicadores de sustentabilidade, verificando o impacto da emissão de carbono antes da porteira (fertilizantes, defensivos, sementes), durante o processo de produção (semeadura, tratos culturais, colheita e transporte) e na indústria (secagem, energia, resíduos). “Coletamos todas as informações sobre entradas e saídas de insumos e dos processos do sistema de produção para avaliar o ciclo de vida do trigo até a produção do produto final”, conta o analista da Embrapa  Álvaro Dossa .

As propriedades participantes do projeto trabalham com trigo de sequeiro em sistema de rotação de culturas e plantio direto na palha há, aproximadamente, 30 anos. O estudo leva em conta fatores como o tamanho das propriedades, o tipo de fertilizantes utilizados e as cultivares, entre outros, relacionando-se com os potenciais impactos ambientais.

Com base em nossos dados, foi possível identificar dois tipos de produtores de trigo, em que o tamanho das propriedades era o principal fator de diferenciação. Assim, a pegada de carbono (quilo de CO2 para cada quilo de trigo produzido) chegou a 0,58 nas pequenas propriedades e a 0,47 nas grandes propriedades. “A segmentação permitiu melhor representar a realidade da produção de trigo e farinha da região do estudo, pois não seria correto o pequeno produtor, que representa a maioria, ser agrupado com grandes produtores, empresariais, já que isso pode alterar os resultados e possíveis recomendações futuras”, explica Dossa.

Uma metodologia utilizada na pesquisa do trigo brasileiro foi a Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), que permite verificar os impactos ambientais associados a todos os projetos do ciclo de vida de um produto. A ACV segue uma padronização internacional (ISO 14040 e ISO 14044) e considera também indicadores de pegada hídrica e potencial de aquecimento global.

 

Foto: Luiz Magnante

 

 
 

Joseani Antunes (MTb 9.693/RS)
Embrapa Trigo

Consultas da imprensa

Número de telefone: (54) 3316-5800

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