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Microorganismos raros permitem o cultivo de milho em solos afetados por salinidade excessiva.

Os microrganismos foram isolados das raízes da erva-sal, planta naturalmente adaptada à salinidade e utilizada na fitorremediação de solos salinos

Por: Redação Fonte: Embrapa
19/05/2026 às 09h10
Microorganismos raros permitem o cultivo de milho em solos afetados por salinidade excessiva.
Foto: Clarice Rocha
  • As arqueas extremófilas são um grupo de microrganismos adaptados a condições extremas.
  • Um estudo descobriu que elas podem aumentar a tolerância do milho à salinidade excessiva do solo.
  • Em experimentos, eles promoveram um crescimento vigoroso das plantas e aumentaram a tolerância fisiológica das mesmas.
  • As arqueas estão surgindo como uma alternativa biotecnológica para reduzir os danos causados ​​pela salinidade e possibilitar o cultivo em solos degradados considerados improdutivos.
  • Bioinoculantes à base de arqueas podem ser avaliados para aplicação em sementes ou diretamente no solo antes da semeadura.
  • Essa estratégia poderia ajudar culturas como o milho a manterem seu desempenho de produtividade mesmo em áreas irrigadas com água salobra, uma situação comum na região semiárida do Nordeste brasileiro.

 

Um estudo conduzido pela Embrapa em parceria com a Universidade Brandeis , nos Estados Unidos, descobriu que arqueas extremófilas (um grupo de microrganismos distintos das bactérias e adaptados a condições extremas) podem aumentar a tolerância do milho à salinidade excessiva no solo, permitindo que as plantas cresçam vigorosamente mesmo sob condições de estresse salino. Os pesquisadores demonstraram que as arqueas colonizam a rizosfera, a região do solo ao redor das raízes, marcada por intensas trocas químicas e biológicas. O estudo foi publicado no periódico Environmental Microbiome .

Os microrganismos foram isolados das raízes da planta <i>Atriplex nummularia</i>, uma espécie de arbusto naturalmente adaptado à salinidade e utilizado na fitorremediação de solos salinos. Após cultivo em laboratório, foram avaliados em plantas de milho. Essa cultura é estratégica para a produção de alimentos e altamente sensível à salinidade do solo, que compromete o crescimento da planta e reduz a produtividade.

Em experimentos conduzidos em condições controladas, os pesquisadores observaram que, sob estresse salino, as arqueas reduziram os efeitos tóxicos do sal, permitindo que o milho mantivesse um crescimento mais vigoroso e uma maior tolerância fisiológica do que as plantas que não foram tratadas com arqueas. 

A análise por qPCR (uma técnica molecular para detectar a quantidade de microrganismos presentes em uma amostra) do gene 16S rRNA específico para arqueas confirmou a colonização bem-sucedida. A abundância de microrganismos na rizosfera do milho aumentou proporcionalmente ao aumento da salinidade do solo.

O sequenciamento completo do genoma identificou genes associados à produção de fitormônios (hormônios vegetais), como auxinas, e osmoprotetores, substâncias que ajudam a manter o equilíbrio hídrico celular em ambientes salinos. A descoberta destaca o potencial das arqueas para interagir com a planta e mitigar o estresse osmótico causado pelo sal. Nos experimentos, a presença dos microrganismos aumentou a biomassa e manteve os níveis de clorofila mesmo sob altas concentrações de sal.

Os resultados destacam o potencial da tecnologia para aumentar a estabilidade da produção de alimentos em áreas afetadas pela salinização. Ao contrário das bactérias, que são os organismos mais conhecidos, as arqueas pertencem a um domínio próprio de organismos vivos e são notáveis ​​por sua alta resistência a condições químicas extremas.

Potencial da biotecnologia

Segundo Itamar Melo , pesquisador da Embrapa Meio Ambiente que coordenou o estudo, solos salinizados são frequentemente excluídos da produção agrícola e se tornam um passivo ambiental significativo, visto que existem poucas tecnologias eficazes para sua recuperação. O pesquisador destaca que as principais culturas comerciais são sensíveis à salinidade excessiva, o que limita ainda mais o uso dessas áreas.

Segundo ele, o uso desses microrganismos adaptados a ambientes salinos, que coevoluíram com plantas halófitas (plantas naturalmente tolerantes ao sal), surge como uma alternativa para reduzir os danos causados ​​pela salinidade e viabilizar o cultivo em solos antes considerados improdutivos. “O problema não se limita ao Semiárido brasileiro, onde cerca de 30% das áreas irrigadas são afetadas pela salinização. Ele está presente em diversas regiões do Brasil e do mundo.”

Melo destaca que a situação se agrava em áreas com altas taxas de evaporação e práticas de manejo inadequadas, como a irrigação com água salobra. “Nesse contexto, os inoculantes microbianos à base de arqueias representam uma inovação promissora no campo dos bioinsumos e podem abrir novas possibilidades para a agricultura em áreas degradadas.” 

O pesquisador João Paulo Ventura, afiliado à Embrapa Meio Ambiente, onde concluiu seu doutorado, liderou a pesquisa, conduzindo os experimentos e analisando os dados do estudo. Segundo ele, as descobertas podem mudar a forma como a ciência enxerga esses microrganismos.

Para Ventura, o estudo demonstra que as arqueias não só são capazes de sobreviver em ambientes extremos, como também podem se tornar aliadas estratégicas para a agricultura sustentável. Até então, as interações entre plantas e arqueias eram pouco compreendidas e raramente estudadas, em grande parte devido às dificuldades envolvidas no cultivo desses microrganismos em laboratório.

O pesquisador afirma que os experimentos mostraram que, quando inoculadas, as arqueias estabelecem uma colonização competitiva e bem-sucedida das raízes do milho. "A abundância desses microrganismos aumenta à medida que os níveis de salinidade do solo aumentam, indicando sua capacidade de adaptação a condições adversas e seu potencial de uso em áreas afetadas pela salinidade."

Segundo ele, as descobertas redefinem o papel desses organismos. "Antes consideradas curiosidades da microbiologia associadas a ambientes extremos, as arqueas agora começam a ser vistas como ferramentas biotecnológicas práticas com potencial para apoiar a produtividade agrícola e contribuir para a segurança alimentar em áreas afetadas pela salinização e pelas mudanças climáticas", afirma.

O impacto e os desafios da salinização

O estudo está ligado a um problema estrutural na agricultura. Na Região Semiárida, especialmente na Caatinga, a salinização do solo prejudica a produção agrícola e a renda rural. Levantamentos da Embrapa indicam que o Brasil possui aproximadamente 16 milhões de hectares de solo afetado pela salinidade, dos quais mais da metade está concentrada na região semiárida do Nordeste brasileiro. Entre 20% e 25% das áreas irrigadas da região já sofrem com problemas de salinização ou drenagem, afetando culturas como milho, feijão, algodão e sorgo.

Em escala global, relatórios da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura ( FAO ) indicam que 1,38 bilhão de hectares apresentam algum grau de salinidade, e outros 1 bilhão estão em risco. Entre 20% e 50% das áreas irrigadas do mundo estão sofrendo declínios na fertilidade e na produtividade. 

 

Estimativas mais conservadoras indicam que aproximadamente 833 milhões de hectares já estão afetados em grau moderado ou severo. O impacto é particularmente grave em áreas irrigadas, que representam uma grande parcela da produção de alimentos em regiões áridas e semiáridas. Entre 20% e 50% dessas terras apresentam níveis de salinidade suficientemente altos para reduzir a fertilidade do solo e a produtividade agrícola.

Os efeitos vão além da produção agrícola. Um relatório das Nações Unidas ( ONU ) relaciona a salinização do solo a impactos diretos na segurança alimentar, estimando que aproximadamente 1,5 bilhão de pessoas vivem em regiões onde a salinização ameaça a estabilidade da produção de alimentos.

 

Aplicações práticas no campo

A curto prazo, os resultados sugerem potencial para testes em condições reais de produção. Bioinoculantes produzidos a partir de arqueias isoladas de ambientes naturalmente salinos ou de consórcios microbianos adaptados a esse estresse poderiam ser avaliados para aplicação em sementes ou diretamente no solo antes da semeadura. 

A hipótese é que a estratégia ajudará culturas como milho, feijão e hortaliças a manterem seu desempenho produtivo em áreas irrigadas com água salobra, situação comum no Semiárido Nordeste brasileiro. Quando integrada a práticas de manejo já estabelecidas — como rotação de culturas com halófitas (espécies adaptadas a ambientes de alta salinidade), plantio direto e adubação balanceada, por exemplo —, a inoculação microbiana pode reduzir os efeitos da salinização nas culturas, aumentar a resiliência dos sistemas agrícolas e contribuir para a segurança alimentar e a renda rural.

O que é salinização do solo?

Trata-se de um processo que envolve o acúmulo excessivo de sais solúveis (como cloretos de sódio e sulfatos) nas camadas superficiais do solo, o que reduz a fertilidade e a produtividade agrícola. O fenômeno pode ocorrer naturalmente — especialmente em regiões áridas e semiáridas —, mas é intensificado por atividades humanas como irrigação inadequada, má gestão da água e fertilização excessiva. 

Como isso acontece

• Climas secos e alta evaporação: a água evapora e os sais permanecem na superfície.

• Irrigação com drenagem inadequada: o excesso de água sem escoamento adequado eleva o lençol freático, causando o acúmulo de sais.

• Utilização de água com alta salinidade: A irrigação com água salobra também tende a concentrar os sais.

 

 

 
 

Marcos Vicente (MTb 19.027 MG)
Embrapa Meio Ambiente

Eliana Lima (MTb 22.047 SP)
Embrapa Meio Ambiente

Consultas da imprensa

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