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Estudo mapeia pegada de carbono do soro de leite no Brasil

O estudo abrange toda a complexidade da cadeia: desde a produção do leite in natura, passando pelo transporte e processamento industrial

Por: Redação Fonte: Embrapa
19/05/2026 às 09h16
Estudo mapeia pegada de carbono do soro de leite no Brasil
Foto: Divulgação Embrapa
  • Cooperação técnica redefiniu critérios para medir impacto ambiental do soro de leite e resultados.
  • Hoje, o soro em pó é um insumo estratégico na formulação de produtos, agregando valor a um componente antes tratado como eliminação.
  • Pesquisa utilizou a Avaliação de Ciclo de Vida (ACV), que mede impactos ambientais ao longo de toda a existência de produtos, processos ou serviços.
  • Os dados gerados estão disponíveis gratuitamente no SICV Brasil, do IBICT.
  • A ACV leva toda a cadeia produtiva: produção primária, transporte e processamento industrial.

 

Um estudo desenvolvido em cooperação técnica entre a Embrapa Gado de Leite (MG), a Sooro Renner Nutrição e a Universidade Tecnológica Federal do Paraná ( UTFPR ) redefiniu critérios de medição do impacto ambiental do soro do leite e resultados no setor. O soro em pó se destaca hoje como um insumo estratégico, amplamente utilizado na formulação de produtos de nutrição esportiva à indústria de panificação, agregando valor econômico a um componente historicamente tratado como exclusão.

Coordenado pelo professor Fábio Puglieri, da UTFPR, o projeto se baseou na Avaliação de Ciclo de Vida (ACV), uma ferramenta que mensura os impactos ambientais potenciais de produtos e serviços, de forma integrada e inédita no Brasil, expandindo uma análise para além da "porteira da fazenda". Segundo a analista da Embrapa Gado de Leite Vanessa Romário de Paula , o estudo abrange toda a complexidade da cadeia: desde a produção do leite in natura, passando pelo transporte e processamento industrial, até a obtenção do soro de leite em pó, popularmente conhecido como whey protein. “A cadeia láctea brasileira acaba de dar um passo decisivo rumo à transparência ambiental e à eficiência produtiva”, comemora o analista.

A principal ruptura desse projeto em relação aos estudos anteriores é sua abordagem sistêmica e completa. Em vez de analisar os elos de forma isolada, a metodologia conectou múltiplas etapas produtivas em uma única avaliação. "Ao incluir os fluxos de transporte e as sucessivas transformações industriais, o projeto oferece um diagnóstico fiel do desempenho ambiental do setor. Assim é possível identificar onde estão os maiores gargalos de emissão de gases de efeito estufa", afirma o pesquisador da Embrapa Gado de Leite Thierry Ribeiro Tomich .

A pesquisa foi dividida em duas etapas. Na primeira, focada na produção primária, houve a caracterização e tipificação dos sistemas de produção de leite da base de fornecedores da Sooro, considerando critérios de representatividade geográfica e tecnológica. Na segunda etapa, o foco voltou-se para a indústria e transporte, onde foram levantados dados primários sobre os processos de industrialização da Sooro e de seus parceiros de laticínios.

Um dos pilares da iniciativa é a democratização do conhecimento, com os resultados do projeto compartilhado com a sociedade. Os Inventários de Ciclo de Vida (ICV) do soro foram disponibilizados na plataforma SICV Brasil , gerenciada pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia ( IBICT ), para acesso livre e gratuito. “Essa iniciativa permite que outros pesquisadores, indústrias e órgãos governamentais utilizem dados reais da produção brasileira para outros projetos de ACV, facilitando tomadas de decisão”, diz Thiago Oliveira Rodrigues, pesquisador do IBICT.

Os dados detalhados podem ser consultados nos seguintes links:

●      Soro de leite 30% (RS)

●      Soro de leite em pó (PR)

●      Soro de leite em pó (RS)

 

Compromissos globais

O projeto está alinhado a compromissos internacionais, como a Agenda Global para o Desenvolvimento Sustentável ( ODS 17 ) da Organização das Nações Unidas ( ONU ) e o Compromisso Global de Metano , do qual o Brasil é signatário, reduzem as emissões em 30% até 2030. A parceria entre a Embrapa, a Sooro e a UTFPR prevê ainda a entrega de um plano de ação detalhado com recomendações de práticas para mitigação de Gases de Efeito Estufa (GEE). Essas estratégias serão fundamentais para que o setor lácteo não cumpra apenas o critério dos mercados internacionais, mas também responda a um consumidor cada vez mais atento à procedência e ao impacto dos alimentos que colocam na mesa.

 

O desafio ambiental do soro de leite

Historicamente, o soro de leite representou um dos maiores desafios ambientais para a indústria de laticínios. Devido à sua altíssima carga orgânica (elevada Demanda Bioquímica de Oxigênio - DBO), o descarte inadequado do soro líquido em cursos d'água pode causar um rápido esgotamento de oxigênio, levando à morte de peixes e ao desequilíbrio total dos ecossistemas aquáticos.

Além disso, o soro é rico em lactose e proteínas que, se não processadas, se transformam em um passivo ambiental oneroso. “A transformação desse "subproduto" em soro em pó não é apenas uma estratégia de lucro, mas uma necessidade de sustentabilidade operacional”, afirma Tomich. Ao converter o soro em um ingrediente nobre, a indústria mitiga riscos de contaminação e reduz o desperdício de nutrientes valiosos que já consumiram recursos (água, energia e terra) para serem produzidos.

 

O que é a Avaliação do Ciclo de Vida (ACV)?

A Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) é uma técnica metodológica utilizada para medir o impacto ambiental potencial de um produto, processo ou serviço ao longo de toda a sua existência. É frequentemente chamada de análise "do berço ao túmulo", pois examina desde a proteção das matérias-primas naturais até o descarte final, passando por todas as etapas internas, como transportes, processos industriais e o uso do produto.

Para realizar uma ACV, os pesquisadores quantificaram todas as entradas (energia, água e materiais-primas) e saídas (emissões de gases, efluentes líquidos e resíduos sólidos) de cada fase da cadeia produtiva. No caso do projeto que uniu a Embrapa e a Sooro, a análise contemplou:

- Produção primária: o impacto da criação do gado e da produção do leite;

- Transporte: o gasto de combustível e as emissões no deslocamento do leite e do soro;

- Processamento industrial: o consumo de energia e os insumos nas fábricas para transformar o soro líquido em pó.

A ACV é realizada em quatro fases, baseadas nas normas ISO 14040/14044 . A primeira é a definição de objetivo e escopo, que determina o que será analisado (por exemplo, 1 kg de soro em pó) e quais fronteiras serão condicionais. Em seguida, é feita a Análise de Inventário (ICV), ou seja, uma coleta de dados técnicos sobre cada recurso utilizado e cada extinção gerada. A terceira fase é a avaliação de impacto, que traduz os dados do inventário em categorias de impacto ambiental, como pegada de carbono (aquecimento global), consumo de água ou acidificação do solo. A fase final é a interpretação dos dados, quando os resultados são analisados ​​para identificar oportunidades de melhoria e redução de danos.

Diferentemente de uma análise comum, que poderia se concentrar apenas em melhorias pontuais como troca de embalagens ou uso de energia renovável e biocombustíveis, a Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) evita o "deslocamento de carga ambiental", isto é, quando uma solução em uma etapa gera problemas em outra. Na produção de soro de leite em pó, por exemplo, cerca de 85% das emissões totais ocorrem no campo. Assim, diminuir o impacto ambiental nessa etapa inicial proporciona uma redução muito maior no impacto final do produto do que qualquer alteração na embalagem ou na matriz energética da indústria, uma vez que essas atuam sobre uma parcela minoritária das emissões.

 

Embrapa Gado de Leite é pioneira em ACV do leite demonstra sustentabilidade

Desde 2023, a Embrapa Gado de Leite adota uma metodologia de Avaliação de Ciclo de Vida (ACV) para identificar o desempenho ambiental de todas as fases produtivas, analisando desde a produção dos alimentos da dieta dos animais até o leite resfriado pronto para sair da fazenda. Essa abordagem revelou que a eficiência produtiva caminha lado a lado com a preservação ambiental: sistemas que produzem mais leite por hectare ou por vaca tendem a apresentar uma pegada de carbono significativamente menor.

Os estudos tecnológicos conduzidos pela Embrapa mostram que, com manejo adequado e, o Brasil possui um dos leites mais sustentáveis ​​do mundo. O projeto consolidou a Empresa como referência em métricas de sustentabilidade, de base para parcerias atuais que agora expandem essa análise para toda a cadeia industrial, como no caso do processamento do soro de leite.

 


 

 
 

Rubens Neiva (MTb 5.445/MG)
Embrapa Gado de Leite

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