
Em seu terceiro mandato consecutivo como Deputado Estadual, Requião Filho (PDT), atualmente pré-candidato ao Governo do Estado do Paraná, concedeu uma entrevista exclusiva ao site Coluna do Meio, na qual temas como Reforma Agrária, Demarcação de Terras Indígenas e Desmilitarização da Polícia foram os assuntos centrais da conversa. Confira, abaixo, a entrevista na íntegra.
Luciano Palagano (Coluna do Meio): Então, deputado, você pode falar para a gente como que está o andamento da pré-campanha, como está esse processo? E também falar um pouquinho, rapidinho, para o nosso leitor: quem é Requião Filho?
Requião Filho: Bom, a pré-campanha vai muito bem, graças a Deus, uma conversa boa com vários partidos, com um grupo de pessoas que quer um Paraná diferente e conforme nós vamos andando e conversando com as pessoas pelo interior do Paraná, aqui na capital, nos grandes centros, ela vai ganhando tração, vai tendo mais eco. Então, isso para nós é muito positivo. Requião Filho é brasileiro, paranaense e apaixonado pelo estado do Paraná, indignado e inconformado com o que vem acontecendo hoje no nosso estado, vendo que a campanha ia se tornar um balcão de negócios e um desfile de miss simpatia, uma fogueira das vaidades, a gente se viu obrigado a trazer uma proposta séria para o Paraná sobre geração de emprego, sobre impostos, sobre como melhorar a vida do povo paranaense e não a vida de um grupo econômico apenas e foi aceito, estamos aí nesse trabalho agora.
Luciano Palagano (Coluna do Meio): Então, partindo um pouco desse ponto, a gente tem algumas questões, algumas inclusive que são bastante caras para a população da região oeste do estado. Uma delas é o debate sobre reforma agrária, sobre demarcação de terras indígenas. O Paraná hoje tem um passivo histórico relacionado à reforma agrária, relacionado à questão de demarcação de áreas indígenas, ao mesmo tempo que tem uma relação de conflito envolvendo ambos. Não é por acaso que o MST nasceu no Paraná, no início dos anos 80 e hoje mais de 5 mil famílias paranaenses vivem em acampamentos, aguardando pela reforma agrária. Na mesma situação, vivem milhares de famílias indígenas que aguardam também pela demarcação das suas áreas, das mais diversas etnias. Qual é a sua posição sobre esse quadro, sobre essa situação? Como o senhor vê, enxerga essa questão no estado? Como o senhor avalia que o governo, o atual governo do Paraná, tem atuado nesse sentido ou não tem atuado?
Requião Filho: O atual governo não tem atuado, ele é contra a reforma agrária, ele é a favor de grilagem de terras e ocupações dos muito ricos, inclusive por empresas que tomam terras da União. O atual governo apoia esse tipo de situação e gosta de tratar os movimentos sociais, em especial os do campo, como terroristas e bandidos. A gente sabe que essa não é a verdade, o Paraná tem na sua história uma luta por terras, revolta dos posseiros, trabalho contra a grilagem, contra grileiros, então o que a gente tem no Paraná é o que a gente tem no Brasil, uma reforma agrária que está pausada por conta de um congresso mal escolhido.
Luciano Palagano (Coluna do Meio): E tem algum debate na ALEP sobre isso hoje?
Requião Filho: Na ALEP não tem hoje, porque isso é matéria federal.
Luciano Palagano (Coluna do Meio): Certo!
Requião Filho: O que a gente pode discutir aqui na ALEP é como a polícia e como o governo... O que a gente pode discutir é como as forças de segurança e o estado trabalham nesta situação para garantir, antes de mais nada, a paz. Porque a polícia não é um órgão de força para garantir a grileiros que fiquem com terras da União e para bater em famílias que buscam trabalhar a terra. Agora, a reforma agrária, ela está parada no Brasil por causa de um Congresso que está mais preocupado com o Tik Tok e com o Instagram do que com o desenvolvimento social do nosso estado.
Luciano Palagano (Coluna do Meio): Aproveitando a questão da polícia, hoje existe um debate, dentro da segurança pública estadual sobre dois temas principais, um que é a questão da unificação das carreiras, e o outro é o debate, às vezes bastante polêmico, mas que cada vez mais entre os praças tem ganhado apoio, que é o da desmilitarização. Como o senhor avalia essa situação? Como o senhor se posiciona em relação a esse debate?
Requião Filho: Nós temos mais de um tipo de polícia no Brasil. Nós temos a polícia judiciária e a polícia militar. A polícia judiciária sendo a polícia civil, investigativa. E a polícia militar é uma polícia ostensiva. Eu sou contra a desmilitarização da polícia. Eu acho que forças de segurança de grande porte, com pessoas armadas, exigem sim uma hierarquia, e ainda mais quando ela é uma polícia ostensiva de patrulhamento e de imposição da força do Estado. É uma coisa muito séria para ser levada como uma brincadeira, ao deus-dará. Eu acho que uma carreira única é algo a ser estudado, que o cara pode começar, mas já estamos agora com exigência de nível superior, então uma carreira onde se começa como soldado e se termina como oficial é algo que a gente sempre procurou implementar na Polícia Militar do Paraná, inclusive quando o Requião foi governador, sou favorável a gente rever isso aí, buscar uma maneira de implementar isso. E acho que as forças de segurança, o que nós temos um problema hoje, é que elas são focadas na parte material, ou seja, equipamento, viatura, armamento, e não há foco nenhum na parte humana, em novos concursos, em formação, em salários, em treinamento, em condições positivas de trabalho. Então eu acho que o que nós temos de problema hoje nas forças de segurança é que nós estressamos as forças de segurança até o limite, e é como uma corda, se você esticar demais uma hora ela estoura.
Luciano Palagano (Coluna do Meio): E existe alguma proposta no sentido da inteligência policial, ou ao menos da segurança investigativa?
Requião Filho: Toda a boa segurança é preventiva, o correr atrás sempre é mais caro, então sim, investir em segurança, investir em inteligência, em monitoramento das facções, em acompanhamento, em áreas de crime, isso você consegue melhores resultados com menos agentes e com um uso mais eficiente da força. Então você ter uma polícia investigativa que trabalhe, você ter uma polícia militar que conheça a comunidade, você ter uma integração entre forças de segurança e sociedade é necessário. No momento que você põe o policial contra o cidadão e o cidadão contra o policial, você abre um espaço para o crescimento da bandidagem.
Luciano Palagano (Coluna do Meio): Feminicídio: De acordo com o Laboratório de Estudos de Feminicídio da UEL, o LESFEM, no ano passado, em 2025, o Paraná registrou, no total, 355 casos de violência de gênero, sendo 122 consumados, o que levou a vítima a óbito, e 233 tentativas. E o mesmo laboratório alerta sobre uma possível subnotificação desses casos. Ao mesmo tempo, a gente enxerga que o estado do Paraná tem tido uma dificuldade em dimensionar a questão da violência de gênero e tratar isso como uma prioridade, é só ver o valor que foi do orçamento para a política de combate ao feminicídio e outras políticas relacionadas à violência de gênero no estado. Qual é a sua posição sobre esse quadro e como o senhor avalia a atual situação? E, como pré-candidato, o que o senhor defende para enfrentar esse quadro de violência de gênero no estado?
Requião Filho: À médio e longo prazo, educação, porque machismo nada mais é do que ignorância. A gente joga isso para um lado social e cultural, mas isso pode ser combatido com educação, com conhecimento, e eu acredito que a ignorância por parte das pessoas é o que leva a esse machismo exacerbado. Nós temos um movimento reacionário, que se diz da moral e dos costumes, que na verdade é um movimento retrógrado, que quer uma mulher submissa, porque é um movimento que cria homens fracos, inseguros e incultos, que se informam apenas por posts de WhatsApp, TikTok e Instagram e não entendem o que é ser homem.
Então em cima desse movimento de homens inseguros, a gente tem esse crescimento da mulher e a gente tem vendido dentro da mídia social, da social media, que você ter uma mulher submissa, uma mulher que te obedeça, é um sinal de força, de colocamento, de posição social. E não é! Então a gente precisa combater essa proliferação da desinformação dentro da internet e trabalhar muito com os nossos jovens para que eles consigam entender o papel deles como homens na sociedade e o papel da mulher na sociedade. Então, uma vez que a gente consegue vencer a ignorância e combater de imediato, a médio longo prazo com educação, e de imediato o combate a essa disseminação desse tipo de informação, a gente consegue diminuir isso.
Em contrapartida, a gente tem que ter campanhas informando as mulheres dos seus direitos e de onde e como elas podem denunciar. A gente precisa de uma delegacia da mulher que acolha a vítima, não que tenha a revitimização como nós temos hoje em algumas delegacias do Paraná. A mulher chega lá agredida e é agredida novamente pelo sistema, pelo Estado, na falta de acolhimento. E a gente precisa entender que esse movimento político que traz essa misoginia precisa ser combatido.
Luciano Palagano (Coluna do Meio): Betts...
Requião Filho: Contra, e ponto!
Luciano Palagano (Coluna do Meio): Ok...
Requião Filho: Não tem saída, sou contra!
Luciano Palagano (Coluna do Meio): O senhor é a favor da regulamentação ou da proibição?
Requião Filho: Proibição.
Luciano Palagano (Coluna do Meio): Proibição completa.
Requião Filho: Porque, veja, nós estamos falando aqui de um jogo de azar, que o dinheiro sequer fica no Brasil, acessível a qualquer um por um aparelho celular, não há um real controle de idade de quem aposta, não há um limite ligado a interesses financeiros de banco, cartões de crédito e grandes financiadores de campanha. É uma doença endêmica, o vício, é uma compulsão e assim tem que ser tratado. Não pode ser tratado de maneira como se fosse um passatempo, não é um passatempo, é um vício, é uma compulsão. E a gente não pode legalizar isso de uma maneira que se torne tão banal que nós estamos aí com o endividamento enorme das famílias por casa dessa...
Luciano Palagano (Coluna do Meio): Então, e assim, por mais que seja uma questão de regulamentação federal ou proibição federal, mas acaba afetando a população dos municípios, dos estados, onde pega a base...
Requião Filho: Pressão em cima do governo federal e do congresso. O problema é que esses caras financiam campanhas.
Luciano Palagano (Coluna do Meio): E dentro da ALEP, ou talvez no programa de governo, existe alguma proposta no sentido do acolhimento e do acompanhamento das pessoas que já estão sofrendo com essa ludopatia, com esse problema?
Requião Filho: O problema é que o Estado não tem nem tamanho para acolher, a gente tem um déficit de psicólogos na instituição, nas corporações e a gente teria que criar um sistema inteiro novo para esse tratamento. Então, eu acho que isso aí é combate mesmo, é proibição e pressão em cima do governo.
Luciano Palagano (Coluna do Meio): Certo. Para finalizar, se o senhor quiser deixar um recado aí para os moradores, para os leitores da região oeste do Paraná, que são os nossos principais leitores.
Requião Filho: A região oeste do Paraná já descobriu o que era ter um governo que olhava a região como um todo e como um polo potencial de desenvolvimento. Muito mais do que campos, a região oeste teve duplicações, a região oeste teve ferrovias, a região oeste teve investimentos para se industrializar e para crescer. Hoje em dia, a região oeste é relegada à monocultura e ela é muito mais do que isso e pode ser muito mais do que isso. A gente precisa explorar o outro lado, o outro potencial da região. De industrialização, geração de empregos e renda, sem esquecer do agro e de toda essa agroindústria que gira ali. A gente precisa trabalhar melhor esse potencial. Para isso, retomadas de ferrovias, retomadas de investimentos logísticos e do modal rodoviário, também, que hoje está falho, mas infelizmente está na mão do pedágio a pedido do Ratinho. Então dá para mudar, dá para investir mais e dá para ter um Estado que cuida de pessoas. Dá para ter um Estado que na região oeste tem hospitais, que a melhor solução não será uma ambulância para a capital. Dá para ter no Oeste uma região que tenha, além das universidades já existentes, cursos técnicos e indústrias e empresas que gerem emprego de carteira assinada.
Então é possível desenvolver a região como um todo. Uma vez que ela seja vista e entendida como algo além do agro. Ela pode ser maior que isso.
Luciano Palagano (Coluna do Meio): Certo. Muito obrigado.





Jornalista responsável: Luciano Egidio Piltz Palagano
Fotos: Rodrigo Choinski
Edição de texto e imagem: Luciano Egidio Piltz Palagano
Data: 18/05/2026
Local: Curitiba – PR